47 — Nenhuma—
— NENHUMA—
O homem esguio, de cabelo preto como azeviche, bigode grisalho bem aparado e profundas rugas nos cantos dos olhos, falou com cuidado: — Meu nome é Sridar Iyengar. Me aposentei recentemente, após trinta anos no Laboratório de Criminalística do Condado de San Mateo.
Nady estava de pé no púlpito. — Qual é sua área de especialização?
— Impressões digitais.
A sala do juiz Tsang estava tensa às dez e quarenta e cinco da manhã de segunda-feira, quando começamos nossa defesa.
Nady e eu decidimos que ela interrogaria as primeiras testemunhas para dar ao júri a chance de ouvir uma voz nova.
Ela faria o papel de boa policial enquanto eu seria o mau policial.
Mais importante, ela sabia conduzir as perguntas como ninguém.
Ela fez outra pergunta fácil: — Poderia nos contar sobre sua formação?
— Com certeza. — O bigode de Sridar se mexeu enquanto ele explicava que era um nativo de primeira geração de São Francisco, filho de pais indianos que se mudaram para a Bay Area para ficar mais próximos de seu avô, pesquisador da UCSF.
— Me formei em criminologia pela San Francisco State University e passei toda a minha carreira no Laboratório de Criminalística do Condado de San Mateo.
Erickson falou do lugar onde estava sentado: — O Ministério Público reconhece a expertise do Sr. Iyengar em análise de impressões digitais.
O juiz ficou satisfeito. — Obrigado, Sr. Erickson.
Foi uma boa jogada. Sridar era, de fato, uma das maiores autoridades da Califórnia em impressões digitais.
Era também meu ex-vizinho, amigo de longa data, e um dos caras mais meticulosos que já conheci.
Seus pais administravam um restaurante indiano a poucos passos do Dunleavy’s, que virou uma surpresa de sucesso entre as famílias predominantemente irlandesas, italianas, e, depois, chinesas.
Seu jeito acadêmico e sua postura cativante faziam dele uma testemunha pericial perfeita, e ele se tornou minha primeira escolha depois que se aposentou.
Eu o recomendava a outros advogados de defesa, e seu trabalho extra pós-aposentadoria virou uma segunda carreira muito lucrativa.
Nady apontou para a TV. — Você reconhece essas impressões digitais?
— Sim. A primeira é a impressão do polegar esquerdo do réu, Reggie Jones, colhida pela polícia durante sua prisão.
A segunda é outra impressão do polegar esquerdo, incluída no relatório policial preparado pelo inspetor Kenneth Lee, relacionada à morte de Tyson Gore.
Ela foi retirada da carteira do Sr. Gore.
— As duas impressões coincidem?
— Não.
— Você encontrou alguma impressão na carteira que coincidisse com as de Mr. Jones?
— Nenhuma.
Até agora, tudo certo.
Nady exibiu outra impressão na TV. — Esta também estava no relatório policial?
— Sim. Foi retirada da gola da jaqueta de couro do Sr. Gore.
— A impressão corresponde à de Reggie?
— Não.
O júri prestava bastante atenção enquanto Nady conduzia Sridar na descrição de uma série de impressões retiradas do cinto, relógio e sapatos de Gore. Sridar confirmou que três das impressões pertenciam a Gore. A quarta estava borrada demais para ser identificada.
— Sr. Iyengar — disse Nady —, você revisou todas as impressões digitais incluídas nos relatórios policiais?
— Sim.
— Você encontrou alguma impressão nas posses ou na pessoa do Sr. Gore que correspondesse ao meu cliente, Reggie Jones?
— Nenhuma.
— Não há mais perguntas.
— Contra-interrogatório, Sr. Erickson?
Nady construiu com precisão o depoimento de Sridar para evidenciar que não havia prova de que Reggie tivesse tocado o corpo ou os pertences de Gore. Erickson não tinha como provar um fato negativo, e ainda já havia reconhecido a especialização de Sridar, então tinha poucas opções de ataque.
— Não temos perguntas para esta testemunha, Meritíssimo — disse ele.
Cinco minutos depois, Nady já estava de volta ao púlpito. — Qual é sua ocupação?
A Dra. Carla Jimenez retirou a máscara e falou com autoridade. — Sou analista sênior forense de DNA no Serological Research Institute em Richmond, Califórnia. Trabalho no SERI há vinte e quatro anos.
— Você é médica?
— Doutora, sim, mas PhD. Me formei em química e ciências biológicas pela San Francisco State, fiz mestrado e depois doutorado em ciências forenses na UC Davis. Minha área de especialidade é serologia forense e DNA forense.
— Você já foi convocada como perita antes?
— Muitas vezes. Já prestei depoimento em centenas de casos em tribunais estaduais e federais em todo o país, inclusive em cortes federais e militares.
E ela realmente é excelente no que faz.
Pedimos para a colega de escola da Rosie lançar mais uma sombra de dúvida sobre a afirmação de Erickson de que Reggie tinha empurrado Gore pela grade do Salesforce Park.
Carla Jimenez se formou como segunda melhor aluna da turma no Mercy High, trabalhou para pagar a faculdade na State e foi aceita na faculdade de medicina da UCLA.
Adiou a matrícula para trabalhar em um laboratório de pesquisas do Departamento de Ciências Forenses da UC Davis, onde seu professor lhe ofereceu uma bolsa para fazer mestrado e, depois, doutorado.
Começou a trabalhar no SERI, o laboratório mais renomado de análise de DNA do norte da Califórnia.
Estava testemunhando pro bono como um favor à Rosie e com a promessa de que a levaríamos para jantar no Chez Panisse, em Berkeley, quando Rosie estivesse melhor.
Nady se aproximou do banco das testemunhas. — Você recebeu muitos reconhecimentos ao longo dos anos, não foi?
— Sou Fellow do American Board of Criminalistics em Biologia Forense, com subespecialidades em Bioquímica Forense e Biologia Molecular Forense.
Também sou membro da Associação de Criminalistas da Califórnia, da Associação Noroeste de Cientistas Forenses, da Associação de Diretores de Laboratórios de Criminalística da Califórnia e da Associação de Gestores de Qualidade Forense.
Erickson finalmente falou. — Concordamos que a Dra. Jimenez é uma perita altamente qualificada nas áreas de serologia forense e DNA forense.
Demorou, hein?
Nady foi até o carrinho de provas, pegou um documento oficial, apresentou como prova e entregou para Carla. — Você está familiarizada com este laudo?
— Sim. É uma análise de DNA de amostras coletadas da pessoa, das roupas e da carteira do falecido Tyson Gore. Foi elaborado pelo Sr. George Romero, da Divisão de Serviços Forenses do Laboratório de Criminalística do Departamento de Polícia de São Francisco.
— Você acredita que foi elaborado seguindo os mais altos padrões da indústria?
— Sim. O Sr. Romero tem excelente reputação.
Nady apresentou uma análise de DNA com base em uma amostra de Reggie que havíamos fornecido ao Inspetor Lee, que, por sua vez, encaminhou ao Romero para análise.
Em seguida, prosseguiu com Carla. — Pedimos para você comparar a amostra de DNA do nosso cliente, Reggie Jones, com os vestígios de DNA encontrados na pessoa, nas roupas e na carteira do falecido, não foi?
— Sim. Não encontrei nenhuma correspondência com o DNA do Sr. Jones.
— Você encontrou alguma evidência de DNA ligando Reggie Jones ao falecido?
— Nenhuma.
Era só isso que a gente precisava.
Nady assentiu triunfante. — Sem mais perguntas.
— Contradita, Sr. Erickson?
— Não, Meritíssimo.
— Deseja chamar outra testemunha, Sra. Nikonova?
— Um momento, Meritíssimo. — Nady aproximou-se da mesa da defesa e sussurrou. — Quer parar por aqui?
— Ainda não. Precisamos seguir o plano e dar ao júri um caminho para o suicídio.
— Tudo bem. — Nady se virou e falou ao juiz: — A defesa chama Sra. Susan Gallardo.