46 — Precisamos Dar Mais a Eles—
— PRECISAMOS DAR MAIS A ELES—
Reggie estava frustrado. —Que droga você estava fazendo ontem? Por que não falou mais sobre suicídio? E quanto às outras pessoas que estavam no Kanzen naquela noite?
Eu mantive a voz firme. —A gente já conversou sobre isso, Reggie. No contra-interrogatório, só posso perguntar sobre questões que o Erickson levantou no interrogatório principal. Vamos tratar do resto quando começarmos nossa defesa na segunda-feira.
— Você disse que a gente não ia precisar apresentar uma defesa.
— Eu disse que talvez não precisássemos, se conseguíssemos abrir buracos suficientes no caso do Erickson para convencer o júri de que ele não provou nada além de dúvida razoável. Precisamos dar mais para eles. Ou pelo menos deixar tudo nebuloso.
Os olhos dele correram para Nady. —Você concorda?
— Sim.
Reggie se largou na cadeira, desanimado.
Às dez e quarenta e cinco da manhã seguinte, um sábado, Reggie, Nady e eu estávamos reunidos na sala de consulta advogado-cliente, nos fundos do presídio de San Bruno.
O ar cheirava a Lysol. Meu teste deu negativo para Covid antes de eu atravessar a ponte, mas estava pegando um resfriado.
Minha garganta arranhava. Meu estômago revirava.
Reggie franziu o cenho. —Quanto tempo vai durar nossa defesa?
— Uns dois dias — respondi. —Vamos começar chamando dois peritos que vão confirmar que não encontraram suas digitais nem DNA na carteira do Gore.
Talvez a gente chame o gerente do Kanzen para depor que o Gore estava sob muita pressão no encontro de lá.
Depois, nossa perita em psicologia vai testemunhar que acredita que o Gore se suicidou.
Depois coloco o Lee de volta no banco, para tentar convencer o júri de que ele não deveria ter descartado a hipótese de suicídio, nem a possibilidade de que as outras pessoas do Kanzen tenham se envolvido.
— Você pretende chamar algum deles para depor?
— Ainda não decidi.
Nady e eu discordávamos nesse ponto. Eu queria jogar um pouco de lama para cima do Matt Bosworth e do Steve Warren, talvez até na Cynthia Mitchell.
Nady achava melhor apenas sugerir a possível culpa deles quando eu questionasse o Lee.
Se colocássemos eles no banco, iam negar que mataram o Gore, o que podia prejudicar a gente.
Pra ser prático, além do fato de que eles estavam no Kanzen e perderam muito dinheiro, não tínhamos nenhuma prova ligando eles à morte do Gore.
— Você ainda quer que eu testemunhe? — perguntou Reggie.
Provavelmente. —Ainda não decidi.
A expressão dele ficou resoluta. —Eu vou estar preparado se você precisar de mim, Mike.
— Ótimo.
— Mike?
— Oi?
— O que você acha de verdade, como tá indo?
Difícil dizer. —Tem uma boa chance de convencermos pelo menos um jurado a absolver, e o júri travar. Se tudo correr muito bem, podemos levar o júri à dúvida razoável e aí você sai daqui.
Terrence “O Exterminador” bateu na porta aberta do meu escritório às oito e quinze da noite, naquele mesmo dia. —Precisa de mais alguma coisa?
— Não, valeu, T. Vai pra casa descansar.
— Te encontro aqui amanhã cedo.
— Amanhã é domingo.
— Seu julgamento recomeça segunda de manhã.
— A gente se vira. Pode tirar o dia de folga.
— Vou ter muitos dias de folga depois que eu me aposentar.
— Você não pode se aposentar, T.
— Posso sim. — Ele me lançou um sorriso maroto. —Você também devia se aposentar.
— Ainda não. Rosie e eu precisamos pagar o casamento da Grace em dezembro, e o Tommy ainda está na faculdade. Além do mais, um advogado sábio já me disse que não se deve tomar grandes decisões de vida enquanto está num julgamento.
— Rosie?
— Isso mesmo.
O sorriso dele se alargou. —Eu não estou no julgamento.
— Você não está no tribunal, mas quando eu estou em julgamento, você também está. A gente conversa de novo depois que o julgamento do Reggie acabar.
— Parece um bom plano, Mike. — E saiu pela porta.
Nady ergueu os olhos do notebook. —Você acha que vai conseguir convencer ele a ficar?
— Não sei.
— E você, vai ficar?
— Se a Rosie concorrer a outro mandato. — Olhei para ela. —Você não tá pensando em sair, né?
— Enquanto você, a Rosie e a Rolanda estiverem aqui, não. — Ela sorriu. —Só pra avisar, não planejo estar trabalhando quando tiver a sua idade.
Pegou pesado. —Nem sou tão velho assim.
— Velho o suficiente pra saber o que faz.
Acho que consigo chegar até os cinquenta.
Depois disso, Max e eu pretendemos morar num lugar quentinho, com piscina e drinks com guarda-sol.
— Ela apontou pra Luna, que dormia no canto do meu escritório.
—Já conversamos sobre isso com a chefe. Ela acha ótima a ideia.
— Por mim, tudo certo.
O tom dela ficou pensativo. —Eu faço isso porque gosto de ajudar as pessoas, é um trabalho interessante, desafiador, e é o que eu sei fazer. Você e a Rosie fazem porque amam isso.
Verdade. —É o que a gente é.
— Não disse que era ruim. Precisamos de gente como vocês pra esse sistema funcionar.
— E de você também.
— Obrigada. — Ela voltou ao trabalho. —A gente devia manter a defesa do Reggie curta.
— Concordo.
— Vai colocar ele no banco?
— Tô inclinado a favor. Quero que ele dê uma negativa rápida, firme.
— O Erickson vai deixar ele lá uma hora desmontando tudo.
— O júri vai se impressionar se ele se defender sozinho.
— Vamos ver. Vai pra casa?
— Vou falar com o Pete antes.
Joey pegou minha caneca vazia. — Precisa de mais alguma coisa, Mike?
— Estou tranquilo.
Ele completou a xícara de café do Pete sem que ninguém pedisse.
Pete e eu estávamos sentados na mesa do nosso pai, no fundo do Dunleavy’s, às dez e quinze da noite de sábado. O movimento do fim de semana era modesto. A TV estava ligada na ESPN. O jukebox estava silencioso.
— Você está com cara de cansado — disse Joey pra mim.
— Isso faz parte quando se está em julgamento.
— Você está ficando velho demais pra esse trabalho de tribunal, Mike.
Dei um sorriso. — Vai catar coquinho, Joey.
— Minha oferta ainda está de pé, se quiser trabalhar no bar pra mim.
— Talvez eu esteja velho demais até pra trabalhar no bar.
— Big John ainda servia bebidas aos oitenta e sete. Vai conseguir uma absolvição?
— Não tenho certeza. — Apontei para Pete. — Depende se ele vai achar alguma prova útil.
Joey sorriu para Pete, que estava checando mensagens. — Quer vir trabalhar pra mim também?
Ele levantou o olhar. — Me parece ótimo. Deixa eu pensar no assunto.
Joey voltou para o bar.
— Achou alguma coisa que eu possa usar? — perguntei pro Pete.
— Tô trabalhando nisso, Mick.
— A gente começa nossa defesa na segunda-feira.
— Eu tô ligado no tempo. Vou pegar informações com meu pessoal do SFPD. Vou falar de novo com a Kaela Joy. E vou ligar pra Nicki Hanson. Talvez alguém conheça alguém que saiba de alguma coisa que possa ajudar. — Tomou um gole de café. — Sou só um detetive particular, Mick. Não faço milagres.
— Infelizmente, eu também não.
— Você é o ex-padre. Devia pedir para seus antigos colegas invocarem algo pra você.
— Não custa tentar. — Amassei meu guardanapo. — Encontrou mais alguma coisa sobre o Damian Mason?
— Uma segunda fonte confirmou que ele foi pro México e sumiu. O país é enorme. Provavelmente não vou conseguir encontrá-lo.
Roosevelt tinha razão. — Algo novo sobre o pessoal da Kanzen?
— Eugene McAllister está melhorando, mas não vai poder depor.
— Ele vai ficar bem?
— Não sei. Tá no UCSF. Ia pegar muito mal tentar botar a culpa da morte do Gore num cara que acabou de ter um derrame.
Verdade. — Não vou fazer isso.
— Que bom. Precisa que eu testemunhe?
— Difícil. — Pete estava na nossa lista de testemunhas caso eu precisasse que ele corroborasse minhas conversas com Kevin Sanders, David Dito, Matt Bosworth e Steve Warren. Ele era excelente no tribunal, mas não é ideal chamar seu irmão como testemunha principal.
Ele terminou o café. — Tenta enrolar as coisas por uns dias. Vou ver se consigo alguma coisa.
A mãe da Rosie sorriu pra mim pela janelinha do Zoom. — Você vai conseguir um veredito de inocente pro Reggie Jones?
— Não sei, Sylvia. Vai ser no limite, mas acho que consigo fazer o júri duvidar.
— Você vai dar um jeito. Você sempre dá.
Às onze e quarenta e cinco da noite de domingo, eu estava sentado na minha cozinha, encarando o notebook, já em reunião no Zoom com Sylvia e Rosie.
Grace tinha saído depois que fechamos nossa atualização semanal dos planos do casamento.
Grace queria chamar mais gente pra lista.
Já tinha passado de cento e vinte pra cento e setenta e cinco convidados.
Depois de dois anos e dois adiamentos por causa da Covid, Rosie e eu cedemos.
O bom de organizar um casamento é que dá pra resolver quase qualquer problema aumentando o valor do cheque.
Olhei pra Rosie, que estava com um moletom da Cal. — Como você tá se sentindo?
— Melhor que ontem. Testei positivo de novo hoje de manhã. — Ela tinha começado o tratamento com Paxlovid. — Parece que está ajudando.
— Que bom. Precisamos de você cem por cento pro casamento.
— Vou ficar bem, Mike. Tu fez o teste de novo?
— Sim. Negativo.
— Ótimo. — Ela falou com a mãe. — E você?
— Negativo, Rosita.
— Que bom. Foi na igreja hoje?
— Fui.
— Mamãe!
— Testei negativo antes de ir pra igreja. Fui de máscara. Testei de novo quando cheguei em casa. Tô bem.
— Precisa de mais testes?
— Ainda tenho uma dúzia do último lote que você me mandou.
— Sylvia contou que ganhou no mah-jongg no começo da noite, mas que o jogo não foi tão bom porque a moça que entrega o baseado não conseguiu aparecer.
— Faz tempo que não jogo sem estar chapada.
Preciso ir, meus queridos. Falo com vocês amanhã. — Sua imagem sumiu.
A voz da Rosie estava cansada. — Tá tudo bem contigo? — ela me perguntou.
— Acho que tô pegando um resfriado, mas vou sobreviver. E tu?
— Garganta arranhando. Fora isso, tô bem.
— Precisamos de você de volta no escritório.
— Logo, Mike. Tem alguma novidade do caso do Reggie?
— Quase nenhuma. — Contei pra ela os planos pra nossa defesa. — Espero que seja suficiente pra convencer o júri a duvidar.
— Não parecem muito confiante.
— O júri tá prestando atenção, mas impossível de decifrar. Pode ir pra qualquer lado.
— Vai colocar o Reggie no banco das testemunhas?
— Provavelmente. Quero que ele conte uma negativa curta e firme.
— Acho que faz sentido. — Ela sorriu e repetiu o que a mãe disse. — Você vai dar um jeito. Você sempre dá.