Moneda Muerta (Los casos de Mike Daley y Rosie Fernández 15) 37 — Isso Pode Ficar Feio —
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37 — Isso Pode Ficar Feio —

— ISSO PODE FICAR FEIO —

— Como você está se sentindo? — perguntei.

Rosie me olhou pela janela do Zoom. — Minha garganta está doendo, mas, fora isso, estou bem. E você?

— Bem.

Eu estava sentado à mesa no apartamento de um quarto atrás do Corpo de Bombeiros de Larkspur, que aluguei quando Rosie e eu nos divorciamos.

Ficava a quatro quadras da casa da Rosie.

Não me dei ao trabalho de trocar os móveis desde que me mudei para lá, vinte e cinco anos antes: uma mesa de tampo de madeira, duas cadeiras com encosto de ripas, um sofá cinza, uma mesa de canto de segunda mão e um conjunto de quarto da Scandinavian Design.

Não era nada de outro mundo, mas era melhor do que os móveis de brechó do meu quarto nos fundos de uma casa centenária em Berkeley na época da faculdade de Direito.

— Do que você precisa? — perguntei.

— Por enquanto, nada. Marquei um teste de PCR no Marin General de manhã. A Dra. Yee disse que vai me passar uma receita de Paxlovid. Tenho comida suficiente. Vou ficar bem.

— Eu estava torcendo para que já tivéssemos acabado com a Covid.

— Só vamos estar livres da Covid quando a própria Covid decidir que acabou com a gente. Acabei de saber que o Prefeito também testou positivo. Parece que o governo da Cidade vai trabalhar de casa nos próximos dias.

Olhei para o sofá, onde minha gata branquíssima, Wilma, dormia.

Wilma morava no apartamento ao lado. Quando meus vizinhos tiveram gêmeos, ela começou a vir para minha casa em busca de paz e sossego.

Aconteceu que os gêmeos eram alérgicos a gatos, então meus vizinhos me pediram para adotar Wilma, já que ela passava a maior parte do tempo aqui mesmo.

Aceitei na hora, e Wilma ficou feliz da vida por ter um lugar tranquilo só para ela e um humano para garantir tigela d’água e potinho de ração sempre cheios.

— Quem você viu depois da reunião? — perguntei.

— Você, minha mãe, meu irmão, Grace, Rolanda e o bebê da Rolanda. Todo mundo testou negativo, menos você.

Por enquanto, tudo bem. Olhei para o teste caseiro ao lado do meu computador. — Deu negativo.

— Ótimo. — A voz dela transbordava resignação. — Vou me sentir péssima se passei isso para alguém.

— Todo mundo está vacinado e tomou reforço, Rosie.

— Acabei de mandar um e-mail para todo mundo do escritório. Pedi para todos fazerem o teste. Você avisa o Pete?

— Já avisei. Ele está limpo também. E a Donna também.

— Que alívio.

— Vamos dar um jeito, Rosie. Pelo menos você não foi exposta bem antes do casamento da Grace.

— Não vamos adiar de novo, Mike — nem que eu tenha que assistir pelo Zoom.

— A gente se preocupa com isso em dezembro. Por enquanto, você precisa ficar em casa uns dias. Eu cuido do escritório até você voltar.

— Você tem um julgamento começando amanhã cedo.

— Fiquei bem habilidoso em fazer mil coisas ao mesmo tempo. O Terrence resolve o que eu não conseguir dar conta. Ele já toca o escritório mesmo.

— Sim, é verdade. Você e Nady estão prontos para ir amanhã cedo?

— Claro.

— E como estão as coisas?

— Não muito boas. Na verdade, a situação pode ficar feia. O Pete soube que Damian Mason foi visto pela última vez entrando no México, e é pouco provável que a gente consiga encontrá-lo. Ele provavelmente era nosso melhor suspeito alternativo.

— E agora ele nem vai poder se defender.

— Não tenho nenhuma prova concreta de que ele tenha algo a ver com a morte do Gore. Não consigo colocá-lo no andar de cima no Salesforce Park.

— Você não precisa provar. Só precisa sugerir. Qual é a narrativa?

Rosie escutou com atenção enquanto eu explicava nossa estratégia de defesa. Fez algumas perguntas certeiras e deu alguns palpites.

— Vai colocar o Reggie no banco das testemunhas? — ela perguntou.

— Só se a situação ficar desesperadora. Se não der certo, vou apelar para o velho truque de ilusionismo.

— Sabia. — A voz dela suavizou. — Acha que consegue tirar um coelho da cartola?

— Sempre existe uma chance.

Ela me encarou. — Você acha que o Reggie matou o Gore?

— Não sei dizer ao certo, mas me parece bem improvável que ele tivesse ficado a noite toda por aí se tivesse feito isso.

— Faz sentido. Você devia sair para tomar ar de manhã.

— Estava pensando em dar uma caminhada para clarear a cabeça.

— Manda um abraço para o Zvi.

Nosso amigo, vizinho e herói, Zvi Danenberg, era um incansável professor de ciências aposentado, com noventa e sete anos, sempre otimista, que fazia exercício subindo os cento e trinta e nove degraus que ligam a Magnolia Avenue, no centro de Larkspur, às casas na colina ao lado.

Ele costumava subir todo dia, mas diminuiu para duas vezes por semana depois de comemorar o nonagésimo quinto aniversário, quando os médicos recomendaram que ele poupasse um pouco os joelhos já gastos.

De vez em quando, eu o acompanhava, numa tentativa perpétua de melhorar meu condicionamento físico.

No tempo livre, Zvi cuidava de uma coleção magnífica de discos clássicos que reuniu ao longo de oito décadas.

Fiquei honrado quando ele me convidou para conhecer o cômodo da casa dedicado aos álbuns.

— Vou transmitir os cumprimentos — disse eu. — Infelizmente, com seu teste positivo para Covid, não vamos conseguir manter nosso ritual pré-julgamento de costume. Para constar, estou profundamente desapontado.

— Eu também.

Como Rosie e eu quase nunca dormíamos na véspera de um julgamento, geralmente tentávamos aliviar a tensão com atividades pré-julgamento no quarto.

— Sinto muito, Mike — ela disse. — Não seria sensato nessas circunstâncias.

— Concordo. Existe “sexo via Zoom”?

Ela deu uma risada. — Acho que não.

— Você vai me compensar se eu conseguir uma absolvição?

Os olhos dela brilharam. — Vou te compensar de qualquer jeito.