27 — Que Diferença Isso Faz?
— QUE DIFERENÇA ISSO FAZ?
— Com licença — eu disse. — Posso falar com você de novo por um minuto, senhora Blair?
Às nove e cinquenta da manhã seguinte, um sábado, a ex-namorada de Gore me lançou um olhar fulminante ao sair da United Barbell, uma academia de CrossFit instalada em uma antiga oficina mecânica na Fourth Street, a dois quarteirões do estádio.
— Você está me seguindo agora? — disparou ela.
— Não, eu estava esperando você.
— Como você sabia que eu estava aqui?
Pete está de olho em você. — Você comentou com a Nady que vem para a aula do Liran todo sábado de manhã.
— Você podia ter ligado ou mandado mensagem.
— Na verdade, fiz os dois.
— Acabei de terminar meu treino. Preciso ir pra casa.
— Eu vou com você.
— A calçada é pública. — Ela puxou o capuz do moletom da Lululemon por cima do cabelo suado. — Já contei tudo que sei.
— Agradeço sua colaboração. Acontece que tenho mais algumas perguntas.
Uma brisa fresca da manhã bateu no meu rosto enquanto caminhávamos para o norte na Fourth por uma área onde antes funcionavam galpões industriais, agora transformados em escritórios e lofts, e novos apartamentos e condomínios reluzentes preenchiam cada quadra.
Uma linha nova do Muni na Fourth Street conecta a Estação de CalTrain até Chinatown.
Alguns antigos botecos pareciam deslocados no meio dos cafés, casas de chá de bolhas, restaurantes e boutiques.
Tentei de novo enquanto passávamos pelo Marlowe, um bistrô sofisticado num prédio centenário ao lado de uma loja de mergulho chamada Bamboo Reef. — Queria perguntar sobre algo que você nos contou outro dia.
Ela continuou andando.
— Você disse que conheceu o senhor Gore num jantar onde estava trabalhando para o buffet. Falamos com uma ex-colega sua do Gold Club que afirmou que você o conheceu enquanto trabalhava lá.
Ela parou. — Que diferença isso faz?
Provavelmente nenhuma. — Por que você não contou a verdade?
Ela voltou a caminhar. Atravessamos o movimentado cruzamento da Fourth com Bryant, passamos pelo Posto Shell e sob o barulhento viaduto da I-80, e seguimos para o norte, passando pelo Whole Foods no térreo de um edifício novo.
Os prédios iam ficando mais altos e elegantes à medida que nos aproximávamos do centro.
— Amanda?
— O quê?
— Por que você não falou que conheceu o senhor Gore no clube?
— Trabalhei lá alguns meses quando estava sem grana. Não é o tipo de coisa que você sai contando pra estranho na primeira vez que conversa com a pessoa, tá?
— Tá. — Dei um momento para ela se recompor. — Tem mais alguma coisa que devamos saber?
— Não.
Esperei.
— Eu não fiquei com o Tyson porque ele era rico. A única vez que peguei dinheiro dele foi quando ele me dava gorjeta no Gold Club. Certo?
— Certo.
— Não faço ideia do que isso tem a ver com o caso de vocês.
— Estou tentando descobrir tudo que eu puder sobre Tyson Gore.
— Você quer tirar seu cliente dessa.
Isso também.
Seguimos em silêncio até Folsom, onde viramos à direita e caminhamos para leste por dois longos quarteirões, passando pela pista de patinação no gelo no Yerba Buena Gardens e por mais torres de apartamentos. Ela parou de repente em frente ao prédio dela, no 500 Folsom.
— Mais alguma coisa? — perguntou ela.
— O problema do Tyson com drogas era grave?
— Bem grave.
— Você sabe onde ele conseguia as drogas?
— Não.
Qualé. — Sério?
— Nunca perguntei — disse ela. — Era coisa do Tyson.
Mostrei pra ela a foto do homem no Salesforce Transit Center. — Já viu ele?
— Não.
— Achamos que talvez ele fornecesse bath salts pro Tyson.
— Nunca vi esse cara.
— Quem saberia?
— O Matt Bosworth, talvez.
— Obrigado. — Levantei a gola do meu corta-vento. — Eu vi seu TikTok.
Os olhos dela brilharam. — E aí, o que achou?
Não acredito que você ganha seis dígitos. — Você é muito talentosa.
— Obrigada.