28 — Não Importa—
— NÃO IMPORTA—
Nady levantou os olhos do laptop. —Blair admitiu que encontrou Gore no Gold Club?
— Sim.
— Já é alguma coisa.
Dei de ombros. —Não importa.
— Ela mentiu.
— Isso não fornece nenhuma prova relacionada à morte do Gore.
— Isso fala sobre o caráter dela.
— O caráter dela não está em julgamento.
— Isso fala sobre o caráter do Gore também. Isso é relevante.
— A gente não vai ter problema em convencer o júri de que ele era um babaca. Mas isso não é prova de que alguém além do Reggie o matou.
O escritório da defensoria estava silencioso às oito e quarenta e cinco da noite de domingo.
Nady e eu estávamos sentados na nossa sala de reuniões, onde o cheiro de mu shu pork e frango do General Tso esquecido enchia o ambiente.
O julgamento da Nady foi para o júri na sexta-feira, então ela estava colocando os assuntos do caso do Reggie em dia.
Pete estava encostado na credenza. Luna encolhida em um canto.
Terrence sentado no lugar de sempre, lá no corredor.
— Tem algum palpite sobre o seu julgamento? —perguntei à Nady.
— Não.
— Como seu cliente está aguentando?
— Ele está esperando pelo pior.
Me arrependi de perguntar. Virei para Pete. —Alguma novidade sobre a identidade do cara do vídeo?
— Ainda não. Mandei a foto dele para minhas melhores fontes na SFPD e na comunidade de detetives particulares.
Enquanto isso, tenho gente de olho no Bosworth, Warren, Mitchell e McAllister.
Vou colocar alguém para seguir o Jack Emrich assim que ele voltar de Londres.
— Olhou pra mim. —Você acha mesmo que vale a pena ficar de olho em um monte de gente rica?
— Eram as únicas outras pessoas no Salesforce Park na noite em que Gore morreu.
— Exceto nosso cliente e o pessoal do Kanzen.
Verdade.
— Olha —ele disse—, eu posso ajudar a convencer o júri de que eles são um bando de bilionários mimados que tratam todo mundo mal. Mas isso não é crime. Ainda não temos provas ligando eles à morte do Gore.
— Então vamos ter que continuar procurando.
Pete vestiu a jaqueta bomber e foi em direção à porta.
— Aonde você vai?
— Continuar procurando.
Nady tirou os óculos de leitura. —Pete estava de mau humor.
— Ele está frustrado —falei—. Ainda é policial por dentro. Ele acha que, se trabalhar duro o suficiente, vai conseguir pegar o culpado.
— Supondo que não seja nosso cliente.
— Verdade. —Olhei para ela.— Você acha que o Reggie matou o Gore?
— Minha opinião não mudou. A verdade é que não tenho certeza do que aconteceu. —Ela lançou um olhar rápido para o laptop.— O julgamento começa daqui a uma semana. É hora do tudo ou nada. Qual vai ser a narrativa?
No meu primeiro dia como defensor público novato, quase trinta anos atrás, Rosie me ensinou que uma defesa bem-sucedida exige uma narrativa convincente e fácil de entender. Quando contratei a Nady, cinco anos atrás, passei o mesmo conselho para ela.
— A menos que a gente encontre uma prova concreta de que outra pessoa matou o Gore, começamos defendendo suicídio —falei.
— A empresa do Gore estava afundando e ele já tinha perdido bilhões.
Os investidores acabaram de recusar o pedido dele por mais financiamento.
Ele estava bebendo demais e tomando antidepressivos e drogas sintéticas.
As ex-mulheres odiavam ele. Não podia passar muito tempo com os filhos.
Amanda Blair terminou com ele. A vida dele estava desmoronando.
— Ele não falou sobre suicídio com ninguém. Não deixou bilhete de suicídio.
— Isso não é determinante. —Contei que tinha passado o dia anterior com a Dra. Gina Cole, a especialista que fez a autópsia psicológica do Gore.— Achei a análise dela convincente. Ela já foi uma testemunha forte em outros casos.
— Você acha que isso é suficiente pra conseguir uma absolvição?
— Pode ser suficiente pra, pelo menos, um jurado ficar com dúvida razoável.
A expressão de Nady ficou cética. —Não sei, não.
Nem eu. —Você realmente acha que o Reggie teria ficado no Salesforce Park se tivesse matado o Gore?
— O júri pode concluir que ele fez isso num acesso de raiva, bêbado.
— Talvez.
— Tu vai colocar ele no banco das testemunhas?
— Só se for preciso.
— E se não funcionar?
Aí estamos ferrados. —A gente parte pro Plano B. Vou tentar jogar a culpa em outra pessoa que estava na festa da Kanzen.
— Falando sério?
— Não há dúvida de que estavam lá. Perderam uma grana pesada. Vou chamar todo mundo pra depor dizendo que estavam com raiva do Gore.
Ela me corrigiu: —Cada um vai dizer que todo o resto estava com raiva do Gore. Tu acha mesmo que isso vai funcionar?
Eu respondi com sinceridade: —Não sei. Meu pressentimento é que, se não conseguirmos convencer o júri de que o Gore estava suicida, vamos estar em apuros. Se for esse o caso, vamos argumentar que o Reggie não teria ficado por lá a noite toda se tivesse matado o Gore.
— Já teve notícia do promotor?
— Por cima. O Erickson disse que ainda não foi autorizado a conversar mais sobre um acordo.
A gente vai se encontrar com o juiz Tsang na quarta pra discutir os questionários do júri e as moções.
Não vou pedir adiamento nem mudança de foro.
Meu palpite é que o juiz vai aceitar nossa moção pra impor sigilo total às partes antes e durante o julgamento.
E vai concordar em não deixar o julgamento ser televisionado—ele é das antigas.
— Quanto tempo acha que vai durar o julgamento?
— No máximo umas duas semanas. Só pra selecionar o júri vai levar uns dois ou três dias.
A acusação vai ser rápida. O primeiro policial na cena, o segurança que encontrou o corpo, o chefe do IML que fez a autópsia, dois ou três peritos e o psicólogo do Gore.
O Ken Lee vai juntar tudo e fazer um resumo da acusação deles.
— E a nossa lista?
— Vamos chamar todo mundo da lista da promotoria e todo mundo que estava na Kanzen. Wendy Gore. Amanda Blair. Nossos peritos. E, claro, Gina Cole.
Eu fui até o canto da sala onde a Luna dormia. Tirei um petisco do bolso e coloquei perto do nariz dela. O olho esquerdo dela se contraiu. O direito se abriu. Ela levantou a cabeça, se sacudiu pra acordar e bocejou. Seus olhos grandes e castanhos ficaram bem abertos, e ela balançou o rabo.
— Dá a pata —falei.
Ela estendeu a pata. Entreguei o petisco, que ela devorou com o entusiasmo de sempre. Ela olhou esperançosa pra mim, mas tive que desapontá-la.
— Desculpa, Luna. Era o último.
Ela se deitou outra vez no chão.
Virei de volta pra Nady. —Queria ter a vida dela.
— É bom ser a Luna.
— Tu devia levar ela pra casa logo.
— Vou sim. —Ela fechou o notebook. —Acho que meu júri deve sair amanhã ou terça, aí consigo me dedicar totalmente ao caso do Reggie.
— Ótimo. Toda ajuda é bem-vinda.
— E o que tu vai fazer agora?
— Amanhã vou atrás do Matt Bosworth e do Steve Warren de novo. Talvez eles consigam identificar o cara no Salesforce Transit Center.