20 — Ele Não Era Suicida—
— ELE NÃO ERA SUICIDA—
A mulher esguia, de olhos azuis cintilantes, maçãs do rosto incrivelmente salientes e cabelos loiros tingidos, recostou-se em sua cadeira de couro ergonômica e falou com uma voz suave. —Sinto muito, Sr. Daley. Não posso falar sobre Tyson Gore.
— Preciso lhe fazer apenas algumas perguntas.
Ela me lançou um sorriso ensaiado. —Você sabe que não posso falar sobre meus pacientes.
— O Sr. Gore está morto. O sigilo expirou com sua morte.
Ela franziu a testa perfeita. —Temos uma divergência sobre confidencialidade. Minha política é não discutir meus pacientes na ausência de uma ordem judicial.
— Posso providenciar isso.
O sorriso sumiu. —Você quer mesmo seguir esse caminho?
— Só se for necessário.
Às oito horas da manhã seguinte, a Dra. Madeline Swartz estava sentada atrás de sua impecável mesa de carvalho, em seu escritório decorado em tons terrosos, no terceiro andar de um prédio da era do terremoto, na South Park — uma faixa de duas quadras de área verde entre a Second e a Third Streets, mais ou menos no meio do caminho entre o Salesforce Park e o estádio.
No início dos anos 1900, era uma área residencial exclusiva.
Após o Grande Terremoto, os edifícios de dois e três andares caíram em decadência, e o bairro virou uma região de pensões e de pequenos galpões industriais.
Nos anos cinquenta, era uma terra desolada em que andar à noite era arriscado.
As coisas começaram a mudar nos anos oitenta, quando Rincon Hill e South Beach, ali perto, passaram pelo processo de valorização.
No início do século XXI, o pequeno parque estava no centro da renascença tecnológica de San Francisco, e os antigos depósitos foram convertidos em escritórios elegantes e lofts modernos.
Hoje em dia, South Park é cercada por cafeterias sofisticadas e boutiques da moda.
Os aluguéis estão entre os mais caros da cidade.
Olhei ao redor do escritório dela, banhado pela luz do sol.
As paredes de tijolos aparentes eram sustentadas por vigas de madeira realçadas por iluminação direcional.
Havia duas poltronas de couro onde imaginei que Swartz recebia seus pacientes.
As obras de arte eram duas paisagens discretas.
As janelas davam para o parque. O efeito geral era devidamente tranquilizante.
— Você é médica? —perguntei.
— Doutorado pela Duke. Graduação em Stanford. Sou psicóloga e coach de vida. Meu consultório é voltado para executivos do setor de tecnologia.
Impressionante. —Seu escritório é muito aconchegante. Há quanto tempo está aqui?
— Vinte e cinco anos.
— Lembro quando esse bairro era uma baixada.
— Eu também. —Seu tom ficou mais incisivo.—Você não veio aqui para falar do meu escritório. Sabe muito bem que não posso discutir sobre meus pacientes.
— A morte de Tyson Gore foi uma grande tragédia. Só estou tentando entender o que aconteceu.
— A polícia acredita que seu cliente o matou.
— Meu cliente diz que não fez isso.
— É para isso que servem os julgamentos, Sr. Daley. Não tenho obrigação nenhuma de falar com você.
— É verdade. Por outro lado, você está na lista de testemunhas da acusação. Imagino que queiram seu depoimento sobre o estado mental de Gore na noite em que morreu.
— Não posso falar sobre isso, Sr. Daley.
Claro que pode. —Você já conhece o caminho das pedras: podemos resolver isso do jeito fácil ou do jeito difícil. O fácil significa uma conversa rápida e educada agora. O difícil vai envolver intimações, advogados e uma conversa nada rápida e nada educada depois. A escolha é sua.
Ela soltou um suspiro exasperado. —Ele não era suicida.
Estamos avançando. —Nossa perita chegou a outra conclusão.
— Conversei com sua perita, a que fez a “autópsia psicológica” — ela até fez aspas com os dedos ao dizer “autópsia psicológica”.
—Conheço a Gina Cole. Ela tem uma ótima reputação.
Entretanto, está bem documentado que esse tipo de autópsia é intrinsicamente pouco confiável.
Além disso, tratei o Sr. Gore por sete anos.
Dra. Cole nunca o conheceu. Tyson era um homem complexo e determinado, que tinha questões pessoais e profissionais que trabalhamos juntos ao longo dos anos.
Na minha avaliação, ele não era suicida.
Se fosse, eu teria recomendado tratamento.
— Você prescreveu antidepressivos.
— Eu sugeri que ele experimentasse. O Sr. Gore convenceu o médico dele a receitá-los.
— Há quanto tempo ele os tomava?
— Dois anos.
— Funcionaram?
— Ajudaram. —Ela não entrou em detalhes.
— Obviamente ele estava muito estressado.
— Há uma diferença entre estar estressado e ser suicida. O Sr. Gore era o primeiro caso, não o segundo.
— Ele estava bebendo muito e usando drogas sintéticas.
— Estava enfrentando os dois problemas.
— Passou por dois divórcios litigiosos e tinha terminado com a última namorada.
— Não posso comentar sobre isso.
— Os negócios dele estavam desmoronando.
— Era um empreendedor experiente, já tinha lidado com empresas fracassadas em outras ocasiões.
Baixei a voz. —A Deal Coin estava à beira da falência. Ele perdeu bilhões. Estava diante da própria falência.
— Ele passava por momentos difíceis, Sr. Daley, mas, na minha avaliação, não era suicida. E estou preparada para depor isso em juízo caso o promotor peça.
Nady me ligou enquanto eu subia a Seventh Street. —Conseguiu alguma coisa útil com a terapeuta do Gore? —ela perguntou.
— Não. —Apertei o telefone contra a orelha. —Ela está pronta para depor que Gore não era suicida.
— Nossa perita vai dizer que era. Gina Cole é muito boa.
— Ela vai ter que ser. Onde você está?
— Na academia.
— Você não deveria estar no tribunal?
— Hoje não temos sessão. Amanhã começam os argumentos finais. Encontrei a Amanda Blair no CrossFit. Acho que consigo convencê-la a conversar com a gente.
Blair era a última ex-namorada do Gore. —Diz para ela que a gente paga o almoço.