8 — Eles são muito potentes
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— ELES SÃO MUITO POTENTES
— Obrigado por me receber com tão pouca antecedência —eu disse.
A Chefe do Departamento Médico Legal da Cidade e Condado de San Francisco assentiu. —De nada, Sr. Daley.
Nos últimos dez anos, tentei convencer a Dra.
Joy Siu a me chamar pelo primeiro nome, mas ela não é desse tipo.
Estávamos sentados em lados opostos de uma mesa com tampo de vidro, numa sala de reuniões sem janelas, no novo edifício do Departamento em India Basin, mais ou menos no meio do caminho entre o estádio e Candlestick Point.
O local não é tão conveniente quanto o antigo escritório dela, no subsolo do Hall, mas as salas de exames de última geração e o necrotério ampliado são um salto de qualidade.
Ajustei a máscara que me pediram para colocar ao entrar no prédio, mesmo que San Francisco já tivesse eliminado a obrigatoriedade. —Por quanto tempo mais você acha que vamos precisar delas?
— Difícil dizer. —Ela tocou a máscara branca N95, que impedia totalmente a leitura de suas expressões. —Vou reavaliar em algumas semanas. Temos vários funcionários imunossuprimidos, e minha assistente está grávida, então estamos tomando precauções extras.
— Muito sensato —comentei.
— Acredito que sim. —Ela alisou a manga do jaleco branco. —Entendo que sua colega, a Sra. Fernandez, está de repouso. Mande meus cumprimentos a ela. Espero que o resto da gravidez siga tranquila e que ela tenha um bebê saudável.
— Obrigado, Dra. Siu. Vou avisá-la.
Ela cruzou as mãos e as pousou sobre a mesa à sua frente.
Dos cabelos negros perfeitamente cortados à maquiagem impecável, a Dra.
Siu era o retrato da precisão. Ela já era nossa médica legista há dez anos e fazia jus à reputação do lendário Dr. Roderick Beckert, que ocupou o cargo por três décadas.
Formada pela Princeton e pela Escola de Medicina Johns Hopkins, ex-pesquisadora da UCSF, era uma acadêmica de primeira linha e uma autoridade internacionalmente reconhecida em patologia anatômica.
Além da enorme carga de trabalho em San Francisco, a ex-candidata olímpica do gelo prestava consultoria em autópsias complexas ao redor do mundo.
Sua voz tornou-se clínica. —Entreguei meu laudo de autópsia sobre Tyson Gore à polícia, à promotoria e ao seu escritório. Suponho que você já leu?
— Sim, li.
— Então você sabe tudo o que eu sei.
Nem tanto. —A causa da morte foi traumatismo craniano?
— Trauma cerebral maciço. O falecido foi empurrado do parapeito do Salesforce Park e caiu na zona de obras em frente à Millennium Tower. Ele morreu na hora.
— O que faz você pensar que ele foi empurrado?
— Havia sangue seco nas mãos e no rosto de seu cliente, indicando luta.
— Entendi que você não encontrou pegadas digitais, sangue nem DNA do meu cliente na vítima ou nas roupas dela.
— O Sr. Gore caiu sobre um monte de cascalho. O corpo dele ficou coberto de poeira. Foi impossível obter amostras utilizáveis.
— Hora da morte? —perguntei.
— Entre duas e onze da manhã e quatro da manhã. —Ela disse que Gore foi visto nas imagens das câmeras de segurança saindo do Kanzen às duas e onze. —Baseei minha análise nos critérios de sempre: estágio da digestão no estômago, rigidez cadavérica etc.
— O laudo toxicológico diz que o Sr. Gore tinha álcool no organismo.
— Abaixo do limite legal.
— Ele também estava tomando um medicamento para pressão chamado hidroclorotiazida.
— Eu também.
Eu também. —Os efeitos colaterais podem incluir dor de cabeça, tontura, espasmos musculares e disfunção erétil.
— O Sr. Gore morreu em decorrência de graves lesões na cabeça, Sr. Daley.
— Você considerou a possibilidade de o remédio ter deixado ele tonto ou até mesmo suicida?
— Não encontrei nenhum indício de que isso tenha impactado o bem-estar físico ou mental dele. E desconheço qualquer estudo revisado por especialistas mostrando que hidroclorotiazida leva ao suicídio.
Eu também não. —O laudo toxicológico também diz que ele tomava um antidepressivo chamado Zoloft.
— É verdade.
— A vida pessoal dele era um caos. Passou por dois divórcios litigiosos. A empresa estava à beira da falência. Perdeu bilhões. Os investidores estavam furiosos. Ele tentava desesperadamente captar recursos para manter a Deal Coin de pé. Você pensou na possibilidade de ele ter se suicidado?
— Conversei longamente com a terapeuta dele, que recomendou o Zoloft. Ela acompanhava o Sr. Gore havia muitos anos. Segundo ela, não havia sinais de ideação suicida, e está disposta a testemunhar a respeito, se necessário.
Nossa perita chegará a outra conclusão. —Entendo que ele também fazia uso de bath salts.
— Sim, fazia.
A encarei. —Os efeitos colaterais incluem alucinações, agitação, comportamento violento, paranoia e pensamentos suicidas. Você considerou a possibilidade de o uso dessas substâncias ter levado ele a atacar meu cliente ou até tentar se matar?
— A quantidade de bath salts no sangue do Sr. Gore era muito pequena, Sr. Daley. Não encontrei qualquer indício de que ele estivesse sofrendo alucinações ou se comportando de maneira irregular.
— Eles são muito potentes, Dra. Siu. Os bath salts são como cocaína, só que dez vezes mais fortes.
— Eu sei muito bem disso, Sr. Daley. Parece que teremos alguns pontos interessantes para discutir no tribunal.