7 — Você Sabe Como Funciona—
— VOCÊ SABE COMO FUNCIONA—
Às duas e quarenta e cinco da tarde de quinta-feira, eu estava sentado no banco de madeira no corredor quase vazio em frente ao Tribunal do Departamento Treze, onde trabalha meu velho amigo, o juiz Stephen Murphy.
Eu esperava Steve encerrar uma sessão do julgamento de homicídio que ele presidia para poder conversar com uma das testemunhas.
Um delegado corpulento abriu a porta e alguns retardatários foram entrando pelo corredor imenso. Em seguida, vieram os advogados. Por fim, o inspetor Kenneth Lee saiu do tribunal. Ele me viu, revirou os olhos e continuou sem parar.
— Ken? —chamei.
Ele continuou andando. Vestia seu tradicional traje de tribunal: um terno grafite da Men’s Wearhouse, camisa branca social e uma gravata de bolinhas.
Aos cinquenta anos, os cabelos eram quase todos grisalhos.
A cicatriz atravessando sua bochecha esquerda estava vermelho-viva.
A mancada de uma lesão sofrida quando foi policial infiltrado na Chinatown tinha piorado.
Segui o ritmo dele e tentei de novo. —Ken?
— Estou atrasado para uma reunião. Não posso falar.
Quer dizer que não quer falar. —Deixei um recado com seu assistente para tentar marcar um horário, mas ele não retornou.
— Tenta de novo.
Ele entrou na escada, e eu o segui um lance acima, até o corredor.
Tentei mais uma vez quando ele estava prestes a entrar em Homicídios. —Por favor, Ken? A Rolanda teve que ficar de repouso, então peguei o caso do Reggie Jones. Preciso só de uns minutinhos. Prometo que não vou te aborrecer mais.
Ele abriu um sorriso ácido. —Vai sim.
Vou mesmo. Eu já estava me humilhando. —Cinco minutos.
Ele soltou um suspiro pesado e fez sinal para eu segui-lo. —Cinco minutos.
Acompanhei-o pelo labirinto de corredores com piso de linóleo amarelado e paredes cobertas de tinta cinza descascada.
Arquivos e caixas estavam espalhados entre as salas e cubículos sem janelas.
Fomos até a área principal onde os vinte e quatro inspetores de homicídios de San Francisco trabalhavam.
A maioria das mesas de metal estava organizada em duplas, de modo que as equipes pudessem ficar de frente umas para as outras.
Lee agora trabalhava sozinho desde que seu parceiro, o lendário Roosevelt Johnson, se aposentara.
Coincidentemente, Roosevelt já tinha feito ronda no Tenderloin junto com meu pai antes de ser promovido para Homicídios.
Lee e eu éramos os únicos na sala. Os colegas dele estavam na rua ou no tribunal. Ele tirou o paletó e o jogou nas costas da cadeira giratória. Sentou-se e me apontou uma cadeira dobrável do outro lado da mesa.
— Ainda tá pensando em se aposentar mais cedo no fim do ano? —perguntei.
— Sim. Vou trocar o quadril.
— Tem alguma chance de eu te convencer a mudar de ideia?
— Tu quer mesmo que eu fique?
— Quero.
— Não esperava ouvir isso de um Defensor Público.
Seria exagero dizer que eu gostava dele, mas eu respeitava, e ele jogava limpo na maioria das vezes. —Você sempre foi honesto comigo. Não vamos concordar em tudo, mas o sistema funciona melhor com caras como você.
— Você tá me elogiando pra ver se eu te passo alguma informação sobre o caso Reggie Jones?
Bom, talvez um pouco. —É sério, Ken.
— Vai entender.
Apontei para as fotos emolduradas das duas filhas dele. A mais velha tinha se formado na Cal. A mais nova estava no último ano da Cal Poly em San Luis Obispo. —Todo mundo bem?
— Tudo certo. Leah tá trabalhando em uma startup de jogos mobile que tá ganhando dinheiro a rodo. Justine tá pensando em fazer Direito. Com a minha sorte, vai virar Defensora Pública.
— Se quiser, converso com ela.
— Valeu. Eu te aviso.
— Você vai lembrar que meu pai patrulhava a rua junto com seu antigo parceiro. Meu pai não ficou feliz quando decidi virar defensor público.
— Talvez a Justine vire promotora.
— Vou aguardar ansiosamente para enfrentá-la no tribunal. Se você continuar por aqui, pode ser a testemunha principal no primeiro julgamento de homicídio dela.
— É. — Ele mudou de assunto. — A Rolanda está bem?
— Está sim. O médico dela está apenas sendo cauteloso.
— Manda um abraço pra ela. Você vai pedir adiamento para o julgamento do Jones?
— Não. Meu cliente quer seguir imediatamente.
— Você devia tentar um acordo.
— Nosso novo promotor não está naquela vibe de negociar.
— Andy Erickson geralmente é bem razoável.
— Andy não está mandando. — Esperei um segundo. — Acho que a Vanessa está testando ele.
— Sem comentários. Já se foram quatro dos seus cinco minutos. Por que você queria me ver?
— Meu cliente diz que não matou o Tyson Gore.
— Ele assaltou o Gore e empurrou ele por cima do parapeito no canteiro de obras.
— O Reggie tinha só doze dólares no bolso quando você prendeu ele.
— Não era um assaltante dos mais bem-sucedidos.
— O Reggie tomou uma garrafa de tequila e desmaiou. Tava inconsciente quando o Gore passou.
— Segundo ele.
— Você tem alguma prova de que meu cliente empurrou o Gore?
— Você conhece o esquema, Mike. É agora que eu mando você ler meu relatório.
— Eu li. Esperava que você pudesse dar um contexto.
— O contexto está no meu relatório.
Não está, não. — Você não relacionou testemunhas que tenham visto o Reggie atacar o Gore.
— Não havia nenhuma.
— E você não tem vídeo do meu cliente atacando o Gore.
— Não existe. — Os olhos dele deslizaram para a mesa e voltaram para mim. — A área onde ocorreu o ataque estava em reforma. Estava cercada por grades e lonas.
— Você não encontrou impressões digitais, sangue ou DNA do meu cliente na carteira do Gore.
— O júri vai montar o quebra-cabeça.
— Nem no corpo nem na roupa dele — acrescentei.
— Seria impossível encontrar amostras usáveis. O Gore caiu de vinte metros num canteiro de obras e morreu na hora com traumatismo craniano. O corpo dele estava coberto de poeira.
— Você não tem prova de que o Reggie teve qualquer contato com o Gore.
— Houve sinais de luta. O rosto e as mãos do seu cliente estavam machucados e sangrando.
— Ele caiu no dia anterior.
— Você está livre pra argumentar isso para o júri.
Eu vou. Continuei tentando, mas Lee não cedia. A resposta padrão de todo investigador de homicídios experiente é remeter ao relatório.
Ele se levantou e vestiu o paletó. — Seus cinco minutos terminaram faz cinco minutos. Vou te acompanhar até a saída.
— Eu sei o caminho. Você considerou a possibilidade de suicídio?
— Consideramos todas as hipóteses. Não encontramos bilhete nem qualquer outra evidência de suicídio.
— O Gore estava sob muita pressão. A Deal Coin estava desmoronando.
— Ele era grandinho.
— E perdeu bilhões. Talvez tenha surtado.
— Não encontramos nada que indicasse isso. A terapeuta dele está pronta para testemunhar que não percebeu sinal de suicídio no Gore.
— Ele estava bebendo muito, tomando antidepressivos e usando sais de banho.
— Se você quiser detalhes do laudo toxicológico, vai ter que falar com o Médico Legista. — Ele me lançou um sorriso de quem entende do assunto. — Ela também vai te mandar ler o relatório dela.