El gato de la cinta roja Capítulo 4 — Una llave para una puerta que no existe #3
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Capítulo 4 — Una llave para una puerta que no existe #3

A juventude não muda certos gestos. O modo de segurar o queixo, a distância calculada do corpo, a elegância como escudo. Era ele.

No centro da fotografia, um casal: Tomás Alcázar e uma mulher de vestido escuro. Atrás deles, parcialmente escondida pela sombra da varanda, uma criança.

Clara olhou mais de perto.

—Quem é a criança?

Nuria se aproximou, os olhos fixos na imagem.

—O filho dos Alcázar. Álvaro.

—Onde está ele agora?

—Ninguém sabe direito. Foi embora depois do incêndio. Ou a mãe o levou. Há versões.

—Claro que há.

León virou a fotografia.

No verso, havia algo escrito a lápis.

A letra era diferente da nota.

Mais trêmula.

La noche antes de que la casa ardiera, nadie estaba donde dijo estar.

Pilar, lá de cima, não aguentou.

—Eu ouvi isso também!

León fechou os olhos.

—Temos que colocar uma placa: “escada não é arquibancada”.

Migas miou.

Ele estava ao lado do nicho vazio, olhando para o lenço bordado que ainda estava dentro da caixa.

—A.A. —disse Clara.

Nuria respondeu antes que alguém perguntasse.

—Alicia Alcázar. Esposa de Tomás.

O padre Mateo fez o sinal da cruz de novo.

—O lenço era dela?

—Talvez.

León iluminou o tecido. O lenço estava dobrado com cuidado, mas uma das pontas tinha uma mancha escura. Não parecia grande. Não parecia recente. Ainda assim, todos souberam que importava.

—Isso fica comigo —disse León.

—Tudo fica com você —respondeu Clara.

—Milagre.

—Mas quero saber por que Elvira teria escondido aqui uma caixa com coisas dos Alcázar.

—Talvez não tenha sido ela.

Clara olhou para ele.

—A nota parece dela. Ela queria mostrar a Nuria uma foto. Ela pediu a fita vermelha. Ela foi vista vindo para cá com uma bolsa que soava a metal. Migas a seguiu. Depois ela morreu. A caixa tem uma fotografia e uma nota sobre memória. Parece Elvira até no mau humor.

León não respondeu.

Porque ela tinha razão ou porque era irritante demais admitir em voz alta.

Tomás, o agente, examinava o chão perto do armário de metal tombado.

—Inspector.

León se aproximou.

—O quê?

Tomás apontou a poeira.

Havia marcas de arrasto.

Alguém movera o armário recentemente.

Atrás dele, na parede, havia outro espaço vazio.

Não um nicho escondido.

Uma marca retangular limpa, sem fuligem.

Como se alguma coisa tivesse permanecido ali por muito tempo e tivesse sido retirada há poucos dias.

—Havia outro objeto —disse Marisol.

—Maior —completou Clara.

León olhou para ela.

—Eu sei. Observação. Desculpa.

Migas caminhou até a marca limpa na parede e cheirou. Depois espirrou.

—Ele não gostou —disse Ramiro, que agora estava quase deitado na escada para ouvir melhor.

—Ramiro! —gritou León.

—Estou verificando a estabilidade arquitetônica!

—Suba!

—Do ponto de vista literário, é um prejuízo.

—Do ponto de vista policial, é uma ordem.

Ramiro desapareceu com um resmungo.

León se agachou diante da marca limpa. Havia dois pequenos furos na parede, como de pregos. Entre eles, restos de papel aderidos à pedra.

—Talvez um quadro —disse Nuria.

—Ou uma fotografia ampliada —respondeu Clara.

Nuria ficou imóvel.

—A foto que ninguém notou.

—Elvira queria que você encontrasse uma fotografia no arquivo —disse Clara—. Mas talvez já tivesse uma aqui.

León se levantou.

—Alguém esteve neste porão recentemente, abriu o nicho, deixou ou encontrou a caixa, e retirou algo da parede.

—Antes ou depois de Elvira morrer? —perguntou o padre Mateo.

—Essa é uma das poucas perguntas inteligentes do dia.

—Obrigado? —disse o padre.

Um ruído seco veio de cima.

Todos olharam para a escada.

—Não fui eu —disse Ramiro rapidamente.

A voz de Pilar chegou logo depois:

—Tem gente.

León subiu primeiro. Clara foi atrás, apesar de ele dizer “Clara, não”, porque naquela altura o “não” já tinha adquirido função decorativa.

Ao sair pela porta baixa, ela viu duas figuras junto à verja.

Uma era Esteban Rivas.

A outra era uma mulher que Clara não conhecia.

Devia ter pouco mais de quarenta anos. Usava calças escuras, camisa branca e óculos de sol apesar da sombra do caminho.

O cabelo castanho estava preso em um coque baixo.

Não era exatamente elegante como Esteban.

Era mais afiada. Dava a impressão de que, se alguém lhe oferecesse uma xícara de café, ela perguntaria antes quem havia lavado a louça.

—Inspector —disse a mulher—. Sou Inés Alcázar.

O nome se espalhou pelo caminho como uma corrente de ar.

Nuria deu um passo à frente.

—Alcázar?

—Neta de Tomás —respondeu ela—. E proprietária parcial deste terreno.

León olhou para Esteban.

—O senhor a chamou?

—Achei prudente.

—Claro. Porque nada diz prudência como convocar uma herdeira para uma possível cena relacionada a um homicídio.

Inés tirou os óculos.

Tinha olhos claros e cansados.

—Homicídio?

Ninguém respondeu rápido o bastante.

Ela olhou para a porta de ferro aberta no muro.

—Meu advogado recebeu uma ligação dizendo que havia invasores nos Álamos. Não mencionaram homicídio.

Clara percebeu que, pela primeira vez desde que Esteban aparecera, ele parecia desconfortável com outra pessoa falando.

—Inés —disse ele—, talvez seja melhor…

—Não. Se alguém abriu aquela porta, eu quero saber por quê.

Migas saiu do porão nesse momento.

Completamente coberto de pó em uma das patas.

Inés olhou para ele.

O rosto dela mudou.

Não muito. Só o suficiente para Clara notar.

—Esse gato —disse Inés.

Clara se aproximou.

—Você conhece Migas?

Inés não respondeu de imediato.

Migas, por sua vez, caminhou até ela.

Não arqueou o lombo.

Não bufou.

Não fugiu.

Apenas se sentou diante de seus sapatos e olhou para cima.

Inés engoliu em seco.

—Minha avó alimentava um gato laranja quando eu era criança.

Ramiro não conseguiu se conter:

—Esse gato?

Pilar deu-lhe um tapa no braço.

—Pensa antes de falar.

—Às vezes esqueço.

Inés quase sorriu, mas não chegou lá.

—Não. Claro que não. Mas era parecido. Muito parecido.

Doña Amparo murmurou:

—Os gatos voltam quando as casas não acabam de morrer.

Pilar a encarou.

—A senhora ensaiou isso?

—Não preciso.

León recolocou a autoridade na voz.

—Inés Alcázar, preciso que se afaste da entrada. Estamos investigando a morte de Elvira Sanz e possíveis conexões com este terreno.

—Elvira está morta?

A pergunta foi limpa.

Sem teatro.

Sem surpresa exagerada.

Isso a tornou mais difícil de ler.

—Sim —disse León.

Inés olhou para a porta de ferro.

Depois para Esteban.

—Então ela conseguiu.

Esteban ficou pálido.

Clara sentiu o mundo estreitar.

—Conseguiu o quê? —perguntou León.

Inés pareceu perceber tarde demais que havia falado em voz alta.

—Nada.

Clara deu um passo.

—Em Valleverde, “nada” deveria ser proibido por lei.

Inés respirou fundo.

—Elvira me escreveu há três dias.

León tirou a libreta.

—O que dizia?

—Que meu avô não morreu como contaram.

O caminho inteiro se calou.

Até Migas pareceu prestar atenção.

—E você veio? —perguntou León.

—Vim ontem à noite.

Clara sentiu Pilar ao seu lado endurecer.

—Ontem à noite?

—Sim.

—Foi à loja de Elvira?

—Fui.

—A que horas?

—Perto das nove.

—Ela estava viva?

—Sim.

—E depois?

Inés olhou outra vez para Esteban. Dessa vez, Clara teve certeza: havia algo entre eles. Não intimidade. Não afeto. Uma história de família torcida por advogados, vergonha e dinheiro.

—Depois ela me mandou embora —disse Inés.

—Por quê?

—Porque disse que precisava devolver uma chave antes que alguém percebesse que ela ainda existia.

A chave vermelha.

O portão.

O porão.

A caixa.

A fotografia.

Clara teve a sensação de que todas as peças estavam próximas demais umas das outras, mas nenhuma ainda encaixava.

León falou com muito cuidado:

—Que chave?

Inés apontou para a porta baixa no muro.

—Aquela.

Esteban fechou os olhos por um segundo.

Doña Amparo deu uma risada sem humor.

—Trinta anos para uma porta que não existia. E bastou um gato para lembrar o caminho.

Migas, como se aceitasse a homenagem, começou a limpar a pata coberta de pó.

León se aproximou de Inés.

—Você vai me contar tudo o que Elvira disse.

—Sim.

—E vai me dizer se entrou neste terreno ontem à noite.

Inés olhou para a corrente nova na verja.

—Não entrei por aí.

—Não foi isso que perguntei.

Ela sustentou o olhar do inspector.

—Entrei pela porta de ferro.

Marisol, Tomás, Nuria, Pilar, Ramiro, doña Amparo, o padre Mateo e Clara ficaram imóveis.

León respirou devagar.

—Com que chave?

Inés levou a mão à bolsa.

Esteban deu um passo brusco.

—Inés, não.

Ela o ignorou.

Abriu a bolsa e tirou uma pequena chave antiga.

A cabeça ovalada.

O dente irregular.

Mas a fita amarrada nela era azul.

Nuria sussurrou:

—La capilla pequeña.

Migas parou de lamber a pata.

A chave azul balançou entre os dedos de Inés Alcázar como um pedaço de passado que havia decidido voltar em par.

León olhou para a porta de ferro aberta, depois para a chave azul, depois para a caixa retirada do nicho.

—Acho —disse ele, muito baixo— que vamos precisar de mais café.

Clara não conseguiu evitar:

—Pilar faz uma garrafa.

Pilar, pela primeira vez em toda a manhã, não reclamou.

Talvez porque até ela tivesse entendido.

A morte de Elvira Sanz já não era apenas um crime.

Era uma porta.

E Valleverde inteira parecia estar atrás dela, prendendo a respiração.