CAPÍTULO 3
O Homem no Corredor
Voltei para a festa com a sensação de que todo mundo conseguia ver o que tinha acontecido comigo.
Não tinha acontecido nada, eu disse a mim mesma enquanto atravessava a sala, passava por grupos de pessoas conversando e tentava reencontrar o caminho até a área externa.
Nada de concreto. Nada que me envolvesse diretamente.
Henrique Andrade tinha transado com uma mulher dentro da própria casa.
Eu apenas tinha visto. Eu apenas estivera no lugar errado, na hora errada, tempo demais.
Mas meu corpo não aceitava essa explicação simples.
Meu coração ainda batia rápido. Minha pele continuava quente.
Havia uma inquietação baixa no meu ventre, uma espécie de alerta físico que me deixava irritada comigo mesma.
Eu tinha terminado um namoro porque não sentia mais desejo, porque não queria uma vida morna, porque precisava de alguma coisa que me atravessasse.
E, menos de quarenta e oito horas depois, a primeira coisa que me despertava de verdade era o pai da minha melhor amiga fodendo outra mulher em uma biblioteca.
Perfeito, Clara.
Simplesmente perfeito.
Quando cheguei à varanda, Natasha estava perto do bar, rindo de alguma coisa que um homem alto e bronzeado acabara de dizer. Ela me viu e levantou a mão.
— Achei que você tinha fugido.
— Fui ao banheiro.
— Demorou.
— A casa é grande.
— Você conhece essa casa desde os doze anos.
— Reformaram algumas partes.
Ela me observou por um segundo a mais, e eu odiei o quanto Natasha conseguia ser perceptiva quando queria.
— Você está estranha.
— Estou ótima.
— Essa resposta nunca significa que alguém está ótima.
Peguei outra taça de espumante da bandeja de um garçom e bebi um gole maior do que deveria.
— Só estou cansada.
— De quê? Você chegou há pouco.
— De você interrogando.
Natasha abriu um sorriso.
— Agora reconheci minha Clara.
Tentei sorrir também. Tentei prestar atenção nela, nas pessoas, na música, no calor da noite.
Mas tudo parecia distante, abafado. Meu pensamento voltava para a fresta da porta.
Para a mão de Henrique nos cabelos daquela mulher.
Para o jeito como ele a beijara, com uma calma que parecia domínio absoluto da situação.
Eu não deveria querer ser tomada daquele jeito.
Não por ele.
— Quem é aquela mulher loira? — perguntei antes de conseguir me impedir.
Natasha acompanhou meu olhar, embora a mulher já não estivesse visível na varanda.
— Que mulher?
— Uma loira. Vestido claro. Estava conversando com seu pai.
— Ah. Beatriz.
O nome me incomodou. Nomes davam realidade às pessoas.
— Namorada dele?
Natasha fez uma careta.
— Deus me livre. Não.
A resposta saiu rápida demais, quase ofensiva.
— Não?
— Beatriz é amiga de uns amigos dele. Aparece em alguns eventos. Acho que já tiveram alguma coisa, mas meu pai não namora. Pelo menos não oficialmente.
— Entendi.
— Por quê?
— Nada. Só achei bonita.
Natasha me encarou.
— Você está perguntando da mulher que estava com meu pai porque achou bonita?
— Sim.
— Clara.
— O quê?
— Você é péssima mentindo fora do ambiente jurídico.
Eu desviei o olhar para a piscina.
— Você vê coisa demais.
— E você está vendo meu pai demais.
Senti meu rosto esquentar de novo.
— Para com isso.
— Eu pararia se não fosse tão divertido.
— Natasha, ele é seu pai.
— Eu sei. É justamente por isso que estou me divertindo.
— Você não deveria achar graça.
— Eu deveria achar o quê? Ciúme? Horror? Clara, eu sei que meu pai é bonito. Infelizmente, tenho olhos. E sei que minhas amigas percebem. Você só é mais engraçada porque está tentando fingir que não percebeu.
— Eu não estou interessada no seu pai.
A frase saiu séria demais.
Natasha levantou as duas mãos, rindo.
— Está bem. Não está. Vamos fingir.
A música aumentou, e alguém a puxou para dançar. Ela resistiu por meio segundo antes de me apontar um dedo.
— Não fuja.
— Não vou fugir.
Mas fugi por dentro.
Fiquei perto da piscina, bebendo devagar, fingindo observar a festa.
A noite estava bonita demais para o tipo de confusão que começava a nascer em mim.
As luzes refletiam na água, as pessoas riam, a casa parecia saída de uma revista de arquitetura, e eu estava ali, no meio de tudo, tentando convencer meu corpo de que Henrique Andrade era apenas uma figura antiga da minha adolescência.
Então ele apareceu de novo.
Dessa vez, sem Beatriz.
Henrique saiu pela porta de vidro, ajeitando o relógio no pulso. O gesto era simples, mas chamou minha atenção de um jeito absurdo. Ele conversou rapidamente com um funcionário, apontou alguma coisa em direção ao bar e, em seguida, olhou para a área da piscina.
Para mim.
Meu peito apertou.
Não sabia se era coincidência. Talvez ele estivesse apenas olhando a festa. Talvez nem tivesse me visto. Mas a sensação que tive foi outra. Foi a de que ele sabia exatamente onde eu estava.
Desviei o rosto depressa, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. E talvez tivesse sido. Mesmo que o erro estivesse apenas dentro da minha cabeça.
— Clara.
A voz veio de perto.
Virei-me e encontrei Marina novamente, agora acompanhada de um homem que ela apresentou como Felipe. Ele era simpático, bonito de um jeito comum, com sorriso fácil e camisa aberta no primeiro botão.
— A Natasha disse que você terminou recentemente — Marina falou, sem qualquer cerimônia.
— A Natasha fala demais.
Felipe riu.
— Espero que isso não impeça ninguém de conversar com você.
— Conversar, não.
— Ótimo. Então posso começar perguntando se você dança?
Antes que eu respondesse, senti uma presença atrás de mim. Não precisei me virar para saber quem era. Meu corpo percebeu primeiro.
— Clara.
Dessa vez, a voz de Henrique estava próxima o bastante para fazer o ar mudar.
Virei devagar.
Ele estava a poucos passos, segurando um copo baixo com líquido âmbar. O olhar passou rapidamente por Marina, por Felipe, depois voltou para mim.
— Posso falar com você um instante?
Marina me olhou com curiosidade. Felipe pareceu entender que tinha perdido a oportunidade antes mesmo de tê-la.
— Claro — respondi, e odiei a rapidez com que disse isso.
Henrique fez um gesto discreto para que eu o acompanhasse até uma parte mais afastada da varanda, perto de um jardim lateral. Não estávamos escondidos. Qualquer pessoa poderia nos ver. Ainda assim, a distância da música criou uma bolha perigosa.
— Está tudo bem? — perguntei.
Ele me encarou com calma.
— Essa pergunta deveria ser minha.
Meu estômago afundou.
— Como assim?
Henrique tomou um gole da bebida antes de responder.
— Você saiu muito rápido do corredor.
Por um segundo, não consegui falar.
Então ele tinha visto.
Ou, pelo menos, sabia.
— Eu me perdi procurando o banheiro — eu disse.
— Na casa que você frequentou durante anos?
A mesma observação de Natasha. Mas, na boca dele, não soava brincalhona. Soava íntima demais.
— Reformaram algumas partes — repeti, como uma idiota.
O canto da boca dele se moveu.
— Entendo.
Houve silêncio entre nós. Um silêncio cheio de coisas não ditas. O tipo de silêncio que pedia uma confissão e ameaçava uma queda.
— Eu não queria invadir nada — eu disse, mais baixo.
— Eu sei.
— A porta estava aberta.
— Também sei.
— Então por que está falando comigo como se eu tivesse feito alguma coisa errada?
Henrique inclinou levemente a cabeça.
— Você acha que fez?
A pergunta me atingiu em cheio.
Eu poderia dizer que não. Poderia fingir indignação. Poderia agir como uma mulher adulta, racional, educada, que apenas passou por um corredor e viu uma cena por acaso.
Mas a verdade apareceu no calor do meu rosto.
— Acho que fiquei tempo demais — admiti.
Os olhos dele escureceram de um jeito sutil.
— Ficou.
Meu pulso disparou.
Não era acusação. Não exatamente.
Era constatação.
— Desculpa — eu disse.
— Não pedi desculpas — Henrique respondeu.
— Não?
— Não.
Ele olhou para a festa por um instante, depois voltou a mim.
— Natasha comentou que você terminou um relacionamento.
— Natasha deveria aprender a guardar informações.
— Ela nunca teve esse talento.
— Não.
— Foi recente?
— Anteontem.
Henrique pareceu surpreso por meio segundo. Depois, sua expressão voltou ao controle habitual.
— E hoje está em uma festa.
— Aparentemente.
— Corajosa.
— Ou evitando ficar sozinha.
— As duas coisas podem ser verdade.
Não soube o que responder. Havia algo desconcertante na maneira como Henrique falava comigo. Não era como Lucas, que preenchia conversas com perguntas previsíveis. Henrique parecia escolher cada frase com cuidado e, ainda assim, atingir algum lugar que eu preferia manter fechado.
— Por que terminou? — ele perguntou.
A pergunta era direta demais. Íntima demais. E eu deveria lembrá-lo disso.
Mas respondi.
— Porque não sentia mais desejo.
O silêncio depois da minha resposta foi denso.
Henrique não desviou os olhos.
— Entendo.
Eu segurei a taça com mais força.
— Não deveria ter dito isso.
— Talvez não.
— Então por que perguntou?
— Porque quis saber.
Meu corpo reagiu a essa honestidade seca. Quis ir embora. Quis ficar. Quis que ele parasse de me olhar assim. Quis que olhasse mais.
— O senhor fala sempre desse jeito?
— Que jeito?
— Como se estivesse testando o limite dos outros.
Henrique sorriu de leve.
— E você? Costuma perceber os limites antes ou depois de atravessá-los?
A pergunta era uma armadilha.
Eu deveria rir. Deveria dizer boa noite. Deveria voltar para perto de Natasha e nunca mais ficar sozinha com ele.
Em vez disso, sustentei o olhar.
— Depende do limite.
O sorriso dele desapareceu aos poucos, não por irritação, mas por atenção. Foi como se algo tivesse sido confirmado entre nós. Algo pequeno, perigoso, irreversível.
Antes que ele respondesse, Natasha surgiu do outro lado da varanda.
— Pai! Clara! O que vocês estão fazendo escondidos?
A palavra escondidos me acertou como culpa.
Henrique se afastou meio passo, perfeitamente composto.
— Conversando.
— Sobre mim, espero.
— Nem tudo é sobre você, Natasha — ele disse.
— Deveria ser.
Ela passou o braço pelo meu.
— Vem. Estão colocando uma música ótima e você vai dançar comigo antes que algum advogado chato te sequestre.
— Você fala como se eu fosse incapaz de escolher minhas próprias companhias.
Natasha olhou para Henrique, depois para mim.
— Hoje, eu não tenho tanta certeza.
Eu quase engasguei.
Henrique apenas bebeu um gole, impassível.
— Boa noite, Clara — ele disse.
— Boa noite, Henrique.
Dizer o nome dele pela primeira vez sem o “senhor” pareceu uma intimidade absurda.
Natasha me puxou de volta para a festa, mas eu senti o olhar dele nas minhas costas por alguns segundos. Senti como se fosse uma mão. Como se, mesmo sem tocar, ele tivesse deixado alguma marca em mim.
Mais tarde, quando a festa já começava a perder força, vi Beatriz indo embora sozinha.
Henrique não estava com ela.
Essa informação não deveria importar.
Mas importou.
E, quando entrei no carro de aplicativo, perto das duas da manhã, levei comigo a lembrança da boca dele na dela, da transa que eu tinha visto na biblioteca, da voz dele me perguntando por que eu tinha terminado, e da forma como a palavra desejo pareceu diferente quando dita diante de um homem como Henrique Andrade.
Naquela noite, não sonhei com Lucas.
Não sonhei com liberdade.
Sonhei com uma porta entreaberta.
E acordei querendo saber o que teria acontecido se eu não tivesse recuado.