Moneda Muerta (Los casos de Mike Daley y Rosie Fernández 15) 57 — Seja saudável. Seja feliz. Fique segura.—
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57 — Seja saudável. Seja feliz. Fique segura.—

— SEJA SAUDÁVEL. SEJA FELIZ. FIQUE SEGURA.—

Grace tirou os saltos de sete centímetros e se sentou entre Rosie e eu na mesa principal, vazia, do salão paroquial de St. Peter’s. —Foi um casamento lindo, papai.—

— Obrigado, querida.— Já fazia anos que nossa filha não me chamava de “papai”. —Fico feliz que você tenha se divertido.—

Os olhos castanho-escuros dela brilhavam. —Foi perfeito.—

Às onze e quarenta da noite, no sábado, trinta e um de dezembro, a maioria dos convidados já tinha ido embora, a banda já estava desmontando, e o pessoal do buffet recolhia pratos sujos, taças vazias e toalhas manchadas.

O marido da Grace, Chuck, ajudava os pais a levar as coisas até o carro.

A incansável Sylvia animava a mesa de sobremesas e entretinha o lado Fernandez da família com suas histórias.

Joey, Pete e minha irmã caçula, Mary, lideravam o grupo Daley em uma última rodada no bar.

O barman já tinha encerrado, mas Joey tinha conseguido contrabandear uma garrafa de uísque irlandês Glendalough.

Sorri quando vi ele servir um dose para Tommy, mesmo sabendo que ele ainda não tinha completado vinte e um anos.

Ninguém ia nos denunciar para a polícia.

Entregamos vales-presente do Uber para quem quisesse e incentivamos todos a não dirigirem depois da festa.

Grace abriu um sorriso radiante, idêntico ao de Rosie. Era impressionante como ela se parecia com a mãe quando Rosie e eu nos casamos em St. Peter’s, quase trinta anos atrás. —Vocês deviam ir para casa,— disse ela para Rosie. —O dia foi longo.—

Rosie sorriu. —Quero aproveitar mais alguns minutos, querida.—

— Eu também.—

Olhei ao redor do salão de festas simples na velha igreja, onde meus pais foram batizados e casados, onde Rosie e eu fomos batizados e casados, e agora Grace também. As lembranças vieram todas de uma vez.

— Levamos quase dois anos para chegar até aqui,— falei para Grace. —Não estou com pressa para ir embora.—

Rosie estendeu a mão e apertou a de Grace. —Sinto muito por você não ter tido aquela sua super festa no Fairmont.—

— Não precisa pedir desculpa, mãe. Eu não mudaria nada.—

Quando começamos a planejar o casamento da Grace, demos entrada em um evento de gala no Fairmont.

Era o casamento com que Rosie sempre sonhou.

Rosie e eu nos casamos de modo simples ali em St. Peter’s, com uma banda encabeçada pelo primo dela e comida do Roosevelt Tamale Parlor, logo na esquina.

A Covid acabou com os planos originais para Grace, e não conseguimos remarcar no Fairmont.

Ela ficou decepcionada no começo, mas acabou preferindo uma cerimônia menor em St. Peter’s, que tinha mais a nossa cara.

Rosie olhou para nossa linda filha. —Quando seus filhos se casarem, você e o Chuck podem fazer uma grande festa no Fairmont.—

— Talvez a gente faça mesmo.— O semblante da Grace ficou sério. —Você está tão quieto, pai.—

— Só estou cansado.—

— O que foi?—

— Eu sei que hoje é sua noite de núpcias, mas será que o pai da noiva pode pedir um favorzinho?—

Os olhos dela brilharam. —Claro.—

— Três gerações da nossa família foram batizadas nesta igreja. Quando você e o Chuck tiverem filhos, nada me deixaria mais feliz do que ver uma quarta geração batizada aqui.—

— Não pensaríamos em fazer isso em outro lugar.— Ela olhou para o nada, pensativa. —Vocês já pensaram em se casar de novo?—

Vixe. Passei a bola rapidamente para a Rosie.

Ela pensou por um instante. —De vez em quando.—

— O que impede vocês?— perguntou Grace.

— Superstição.—

— Sério?—

Rosie estendeu a mão e tocou meu braço. —A gente se deu muito melhor depois que deixou de ser casado. Estamos com medo de mexer em time que está ganhando.—

— Vocês trabalham juntos. Passam a maior parte do tempo vivendo juntos. Nunca pararam de dormir juntos. Por que não oficializam logo?

Rosie olhou na minha direção e sorriu, depois voltou-se para Grace. — O seu pai e eu não lidamos muito bem com mudanças. Talvez seja por isso que você e o Chuck se casaram na mesma igreja que seus pais e avós.

Grace ficou confusa. — Você sabe que isso não faz o menor sentido.

Não, realmente não faz.

Os olhos de Rosie se encheram de amor materno. — Algumas coisas não fazem sentido, Grace. Conforme você for ficando mais velha, vai perceber que seus pais têm as suas, ahn, manias, como todo mundo. Espero que você nos perdoe pelas nossas e aprenda a conviver com elas.

— Claro.

Olhei para o outro lado do salão e vi o Padre Guillermo Lopez tomando um drink com Joey, Pete e Tommy.

Aos quarenta, Gil era um dos padres mais jovens da histórica igreja.

Cresceu na mesma vizinhança e estudou no Saint Ignatius e na USF antes de entrar para o seminário.

Inteligente, perspicaz, carismático e intensamente político, estava pronto para liderar a comunidade rumo ao século XXI.

— O padre Lopez falou muito bem — comentei.

— Falou mesmo — disse Grace. — Assim como você.

— Obrigado.

— Aposto que você foi um bom padre.

— Não fui ruim.

— Por que você resolveu virar advogado?

Foi a primeira vez que ela me perguntou isso. — O sacerdócio não era pra mim. Eu não achava que estava à altura de salvar a alma das pessoas.

— Você é modesto demais.

— Você é que é generosa.

Ela sorriu. — Fico feliz que você tenha decidido deixar o sacerdócio. Se não tivesse, nunca teria conhecido a mamãe, eu não teria nascido, e não estaríamos aqui esta noite.

Verdade. — Eu diria que tudo deu muito certo.

— Eu também. — Sua voz ficou pensativa. — Gostei das últimas linhas do seu discurso. Como era mesmo?

— Você quer três coisas para os seus filhos. Que sejam saudáveis. Que sejam felizes. Que estejam seguros.

— Você que inventou?

Rosie respondeu por mim. — Ele roubou do Big John. Em todo evento de família — inclusive no nosso casamento — sempre pediam pro Big John fazer um brinde. E era isso que ele sempre dizia.

Acrescentei: — Ele dizia que tinha ouvido do avô dele, o seu tataravô Johnny, que veio da Irlanda, mas acho que foi ele mesmo quem criou. Ele tinha o dom de dizer a coisa certa.

— Você sente falta dele, não sente?

— Com certeza. Esse é o nosso primeiro casamento de família em quase noventa anos que o Big John não participou.

— Ele está aqui com a gente, em espírito.

— Está, sim. — Apontei para o Joey, que estava enchendo o copo do padre Gil. — A tradição da família continua bem viva e em boas mãos.

Pensei na minha mãe e no meu pai; no meu irmão mais velho, Tommy; no Big John e na tia Kate; em Sylvia e no saudoso marido dela, Eduardo; e em todos os nossos familiares que celebraram quase um século de grandes eventos nesta construção.

Eu encarava Joey e Tommy quando percebi que Sylvia tinha se juntado a nós.

— Pronta pra ir pra casa, mamãe? — perguntou Rosie.

— Na verdade, preciso de uma carona até Marin.

Rosie se levantou. — Está tudo bem?

— Está sim, Rosita. Você recebeu a mensagem do Tony?

— Não. — Rosie olhou o celular. — Fiquei sem bateria.

Sylvia exibiu o sorriso clássico dos Fernandez. — Rolanda entrou em trabalho de parto. Zach está levando ela pro Marin General. O Tony disse que vai encontrar a gente lá. Se sairmos agora, podemos chegar a tempo do bebê nascer.