35 — Preciso que você esteja pronto—
— PRECISO QUE VOCÊ ESTEJA PRONTO—
A resposta de Reggie à proposta de Erickson foi um simples —Não.—
— Não vamos conseguir uma oferta melhor—, falei.
— Eu não matei Gore. Não vou dizer que matei.—
Ele estava surpreendentemente calmo—quase sereno—enquanto nos encontrávamos na sala de consulta sem graça do Presídio do Condado nº 3, às três e quarenta e cinco da tarde de sexta-feira.
Ele parecia consciente de que, dali a três dias, começaríamos o julgamento.
Além de discutir estratégias jurídicas, eu precisava administrar suas expectativas e emoções.
— Você está bem?— perguntei.
— Nada mal.—
O macacão laranja dele estava manchado de suor. —Você está suando.—
— Isso acontece bastante.—
— Quando foi a última vez que fez teste de Covid?—
— Hoje de manhã. Estou limpo.—
Ótimo. —Está comendo e dormindo?—
— Um pouco.—
— Tente descansar durante o fim de semana. As próximas semanas vão ser estressantes.—
Ele ouviu atentamente enquanto eu explicava o que o aguardava na segunda-feira.
Ele seria levado da cadeia ao Fórum de Justiça, onde eu providenciaria um terno e gravata.
Pedi que ele estivesse barbeado. Lembrei-o de que a aparência é fundamental.
—Todos vão estar de olho em você. Quero que seja respeitoso e se mostre atento.
As pessoas vão prestar muita atenção às suas expressões faciais.
Preciso que encare o juiz, os jurados e as testemunhas nos olhos.
A juíza Tsang é rigorosa quanto ao decoro, então é absolutamente fundamental que você evite qualquer interrupção ou comentário. —
Ele assentiu.
Expliquei que o julgamento começaria com a seleção do júri, um processo tedioso, mas crucial, que duraria pelo menos alguns dias.
—Faremos as alegações iniciais depois que escolhermos o júri.
A promotoria vai primeiro. Depois será a nossa vez.
— Contei que o julgamento provavelmente terminaria em menos de duas semanas.
— Vocês encontraram o cara do vídeo de segurança?—
— Não. Nossas fontes na SFPD nos informaram que ele provavelmente já saiu do país.—
— Mas vocês ainda podem botar a culpa nele pela morte do Gore, certo?—
— Sim, mas não temos provas de que ele estava lá em cima no Salesforce Park naquela manhã.—
Ele soltou um longo suspiro. —Qual é o plano?—
— Vamos começar tentando convencer o júri de que a promotoria não tem provas suficientes para convencer além de qualquer dúvida razoável. Se eu conseguir mostrar furos suficientes na acusação e tudo correr excepcionalmente bem, não vamos apresentar uma defesa.—
Os olhos dele se iluminaram. —Quais as chances?—
— Não mais que vinte por cento.— Expliquei que começaríamos chamando peritos forenses para confirmar que a polícia não encontrou sangue, impressões digitais ou DNA ligando-o a Gore. Em seguida, nossa perita apresentaria sua autópsia psicológica e daria sua opinião de que Gore cometeu suicídio.
— Você acha que o júri vai engolir essa?—
— Difícil dizer. Nossa perita é muito boa, mas autópsias psicológicas são difíceis de convencer. Se parecer que o júri está acreditando, paramos por aí. Se não, vou chamar algumas das pessoas que estavam no Salesforce Park naquela manhã para ver se consigo jogar a culpa potencial em algum deles.—
— Você tem alguma prova de verdade?—
Ah, não. —Todo mundo ali tinha perdido muito dinheiro e estava com raiva do Gore.—
— E se isso não for suficiente?—
Abaixei o tom de voz. —Preciso que você esteja pronto para depor. Quero que negue que matou Gore.—
Ele paralisou. —Achei que era má ideia o cliente depor em sua própria defesa.—
Na maior parte das vezes, é. Pela sabedoria convencional é arriscado colocar o cliente no banco das testemunhas porque a promotoria vai ter a chance de atacá-lo.
— Depende das circunstâncias—, respondi. —Vou te fazer só algumas perguntas. Acho que seria bom para o júri ouvir de você que não matou Gore.—
Ele franziu a testa. —Não sei se vou conseguir.—
— Você consegue, Reggie.—
— E o Erickson?—
— Você não tem com o que se preocupar, desde que diga a verdade.—
Ele não respondeu.
Olhei atentamente para ele. —Você tem me contado a verdade, não tem?—
— Sim.— Ele respirou fundo duas vezes. —Você acha que isso vai dar certo?—
— Acho que temos uma boa chance de convencer o júri sobre a dúvida razoável.—