33 — Ele Era Quem Era—
— ELE ERA QUEM ERA—
— Voo tranquilo? —perguntei.
Jack Emrich respondeu com um sorriso cheio de dentes. —Longo.
— Obrigado por nos receber.
— Obrigado por pagar o jantar.
Pete tinha me informado que Emrich tinha trinta e oito anos, mas seus traços juvenis e o cabelo loiro-areia faziam com que parecesse mais jovem.
Ele tinha passado as últimas dez horas num voo vindo de Londres, mas não havia um fio fora do lugar.
Usando uma camisa sem gola e uma jaqueta de couro, ele parecia com muitos dos jovens gurus das finanças que preenchem as salas de reunião de bancos de investimento e fundos de hedge em San Francisco e no Vale do Silício.
Sua postura ficava entre autoconfiante e arrogante.
O nativo dos subúrbios de Chicago era ex-aluno da Universidade de Michigan.
Começou a carreira como analista na Fidelity, em Boston, se mudou para um fundo de hedge em Nova York, depois para uma empresa de venture capital em Palo Alto, e finalmente se estabeleceu no Deutsche Bank em San Francisco, onde dava consultoria de investimentos para os fundos soberanos da Arábia Saudita, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Nada mal para quem consegue esse tipo de trabalho.
— Sua viagem foi a negócios ou lazer? —perguntei.
— Ambos. —Ele disse que o tempo estava bom em Londres.
— Alguns investidores da Deal Coin mencionaram que você está começando um novo fundo.
— Sim.
Não parecia o melhor momento para perguntar se ele tinha sido demitido do Deutsche Bank depois do colapso da Deal Coin. —Está indo bem?
— Muito bem.
— Boa sorte.
— Obrigado.
O ambiente estava tomado pelo aroma adocicado de costelas e bifes grelhados enquanto nos sentávamos em uma cabine estofada perto do bar reluzente do International Smoke.
É um restaurante sofisticado no térreo da Millennium Tower, que é resultado de uma parceria entre o chef celebridade Michael Mina e a autora, apresentadora de TV e empresária Ayesha Curry.
Para mostrar o prestígio do lugar, Mina e Curry abriram uma segunda unidade no MGM Grand, em Las Vegas.
— Você mora por aqui? —perguntei.
Emrich deu uma mordida em suas costelas coreanas ao osso de setenta e cinco dólares, acompanhadas de arroz com furikake e kimchi de pepino, e apontou para cima. —Lá em cima.
— Como estão indo as reformas?
— Devagar. Tem sido um processo longo e caro, mas quem mora aqui está esperançoso de que estamos perto da reta final. —Ele tomou um gole de sua pilsner da North Coast Brewing Company. —Vocês queriam falar sobre o Tyson?
— Queríamos.
— Não tenho nada a esconder.
Bom saber. —Você está na lista de testemunhas da acusação. Tem ideia do motivo?
— Talvez precisem de mim para confirmar que o Tyson estava no Kanzen na noite em que seu cliente o matou.
Deixei pra lá. —Você conhecia ele bem?
— Relativamente bem. Meus clientes investiram em várias start-ups dele. Tivemos um bom retorno nas primeiras operações. Todo mundo perdeu dinheiro na Deal Coin.
— Disseram que o senhor Gore era visionário.
— Era mesmo.
Até a Deal Coin. —E que ele não era a pessoa mais fácil de se lidar.
— Ele era quem era.
— Entendemos que o comportamento dele ficou instável quando a Deal Coin estava desmoronando.
— Ele era quem era —repetiu.
— Você conversou com ele no Kanzen?
— Claro.
— Ele pediu pra você pedir mais dinheiro aos seus clientes?
— Sim. —Ele deu de ombros. —Eu disse a ele que isso não ia acontecer.
— Como ele reagiu?
— Ficou frustrado.
— Ouvimos que ele discutiu com vários investidores.
— Ele estava sob muita pressão.
— A situação ficou tensa com alguém?
Ele pensou por um instante. —Matt Bosworth e Steve Warren.
— Chegou a rolar alguma agressão física?
— Claro que não.
— Algum deles ameaçou o senhor Gore?
— Eles são grandinhos, senhor Daley. Não foi a primeira vez que algum investimento deles foi por água abaixo.
Virei para Pete, que mordeu seu cheeseburger de trinta dólares e falou com Emrich no tom cortante típico de policial. —Você e Tyson costumavam sair juntos?
— Um pouco. Cheguei a convidá-lo para o camarote da minha empresa no estádio. A gente se via no Kanzen. Nossas ex-esposas se encontravam de vez em quando.
— Você sabia que ele tinha problema com bebida?
— Sabia que ele bebia socialmente. Nunca vi sinal de exagero.
— Você sabia que ele estava tomando antidepressivos?
— Ah, não.
Pete comeu uma batata frita. —Você já considerou a possibilidade de ele estar pensando em suicídio?
Emrich fingiu surpresa. — Você está falando sério?
— A empresa dele estava desmoronando. Ele e os investidores tinham perdido bilhões. Ele andava bebendo demais e tomando antidepressivos. Já passou pela sua cabeça que ele estava à beira do abismo?
— Para ser sincero, não.
— Você sabia que ele estava usando sais de banho?
— Ah, não. — Acrescentou rapidamente: — O que Tyson fazia no tempo livre dele não era da minha conta.
— Isso não te incomoda? Saber que o cara a quem você confiou o dinheiro dos seus clientes estava usando drogas sintéticas?
Emrich tomou um longo gole de sua pilsner. — Isso não prejudicava a capacidade dele de exercer sua função.
— A Deal Coin faliu.
— Não vi nenhuma evidência de que o uso ocasional de drogas recreativas atrapalhasse a capacidade dele de comandar a empresa.
— Nem um pouco?
— Muitos executivos de grandes empresas usam drogas sintéticas.
E olha, muitos advogados também. Isso não atrapalha necessariamente o desempenho deles.
— Ele me encarou. — Gente que faz esse tipo de coisa costuma ficar craque em esconder e continuar trabalhando normalmente.
Aposto com você que tem gente na Procuradoria que tem problema com álcool e drogas.
— Talvez. — Mantive o tom de conversa. — O que você acha que seus clientes no Oriente Médio pensariam disso?
A máscara de confiança dele deu o primeiro sinal de rachadura. — Eles não iam ficar nada felizes.
— Talvez você queira avisá-los que o uso de drogas por Gore pode vir à tona no julgamento. Com certeza vai aparecer no julgamento.
A expressão dele ficou séria. — Eu vou avisar.
Se meu palpite estiver certo, você vai ligar para seus benfeitores em Riad para tentar apagar o incêndio assim que acabarmos de comer.
Emrich tentou recuperar a pose. — Não vejo como isso é relevante para o seu caso.
— Achamos que há grandes chances de o senhor Gore ter cometido suicídio.
— Isso é absurdo.
— Talvez a gente te dê a chance de expor sua opinião no tribunal.
— Como eu disse, não tenho nada a esconder.
Na verdade, acho que tem, sim. Peguei o celular e mostrei a foto de Damian Mason para ele. — Isso foi registrado por uma câmera de segurança no térreo do Salesforce Transit Center na manhã em que o Sr. Gore morreu. Reconhece?
Um olhar de reconhecimento passou pelo rosto dele. — Não.
Você não daria um bom jogador de pôquer. — O nome dele é Damian Mason. Soa familiar?
— Não.
Você está mentindo. — Ele é um traficante de drogas.
— Eu não saberia dizer.
— A polícia acredita que era ele quem fornecia sais de banho para o Sr. Gore.
— Vou confiar na sua palavra.
— Você nunca o encontrou?
— Absolutamente não.
Uma ênfase exagerada demais. Decidi blefar. — Conversamos com ele há uns dias e já o incluímos na lista de testemunhas.
Os olhos de Emrich dançaram de mim para o prato, de Pete de volta para mim. — Não posso impedir vocês.
— O que acha que ele vai dizer se perguntarmos se conhece você?
A hesitação denunciadora. — Ele vai dizer que não.
— Tem certeza?
— Sim. — Terminou a cerveja, pôs o copo na mesa e se levantou. — Foi bom conversar com vocês. Obrigado pelo jantar.
Pete estava sorrindo de orelha a orelha enquanto cruzávamos a passarela temporária no meio do canteiro de obras em frente ao Millennium Tower. — Mandou bem no blefe, Mick. Você deixou o Emrich nervoso.
— Valeu.
— Pena que vai por água abaixo quando o Emrich perceber que você não vai conseguir levar o Mason ao tribunal.
— Eu queria ver como ele reagiria quando eu mostrasse a foto.
— Ele reconheceu o Mason — disse Pete. — Você devia perguntar sobre isso para ele no tribunal.
— Vou perguntar.
— Mas isso não vai te garantir uma absolvição.
Provavelmente verdade. — Talvez ele tente entrar em contato com o Mason.
— Duvido, Mick. — Ele levantou a gola da jaqueta bomber. — Olha pelo lado bom. A gente conseguiu jantar em um restaurante chique. Não é todo dia que rola isso quando estamos trabalhando num caso.
— Verdade. Espero que tenha gostado.
— Gostei sim. A comida estava ótima, mas é meio cara pro meu gosto. Quem sabe o marido da Ayesha não consegue ingresso pra gente assistir um jogo dos Warriors à beira da quadra?
— A gente tem mais chance com o Eugene McAllister. Consegue ficar de olho no Emrich?
— Claro.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem da Nady. Dizia: “Erickson quer ver a gente às 8h, no gabinete do promotor.”