10 — Ele Estava Desorientado —
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— ELE ESTAVA DESORIENTADO —
Às sete da manhã, Pete saiu da escada rolante que vinha da rua até o Salesforce Park. Ele ergueu a gola da jaqueta bomber para se proteger do vento forte e da neblina densa. Entreguei a ele um café médio do Peet’s, puro.
— Valeu, Mick. — Ele se virou para o Sargento David Dito, que também segurava um copo de Peet’s que eu havia trazido para ele. — Bom te ver. A família está bem?
— Tudo certo, obrigado. E a sua?
— Tudo em ordem.
Dito era um policial sólido, lotado na Southern Station, que havia se mudado do Hall of Justice para a nova sede ao sul do estádio de beisebol.
Aos trinta e oito anos, ele fazia parte de uma família multigeracional da SFPD espalhada pelos bangalôs da St. Anne’s Parish, no Sunset.
O tio dele, Phil Dito, foi meu colega de turma em St. Ignatius e também reserva do time de futebol americano, além de já ter trabalhado com Pete na Mission Station.
David, a esposa, a filha de cinco anos e o filho bebê moravam na esquina da casa dos Dunleavy.
Pete tomou um gole do café. — Você e sua família passaram bem pela Covid?
Dito deu de ombros. — Todo mundo já pegou, menos o bebê. Por sorte, nossos casos foram leves.
Sempre gosto de ver Pete em ação. Mais do que isso, prefiro ter alguém que não seja advogado comigo quando entrevisto testemunhas.
Se fosse preciso, Pete poderia confirmar (ou contestar) a versão de Dito sobre a conversa no tribunal.
Também é útil ter um ex-policial presente quando preciso conversar com a polícia.
Estávamos no canto nordeste do Salesforce Park, quatro andares acima do espaço subterrâneo inacabado que talvez seja transformado em uma nova estação CalTrain, caso as autoridades consigam levantar bilhões para estender a linha a partir da estação atual, na Fourth com a Townsend.
Se tudo correr milagrosamente bem e o estado levantar ainda mais bilhões, algum dia o local também servirá como terminal para um trem-bala ligando San Francisco a Los Angeles.
As chances disso acontecer antes de eu morrer são mínimas.
Estávamos três níveis acima da rua, dois acima do espaço comercial quase vazio e um acima do terminal de ônibus pouco utilizado.
O novo centro de transporte, arrojado na arquitetura, ocupa quatro quarteirões de comprimento por um de largura.
Ele substituiu o antigo e decadente Transbay Bus Terminal, um bloco massivo de concreto cinza construído na Grande Depressão, que foi danificado pelo terremoto de Loma Prieta em 1989.
O exterior do novo prédio ostenta uma decoração ousada, em metal branco ondulado.
Fica exatamente no meio do que já foi uma área industrial leve e que hoje é o coração tecnológico do South of Market, em San Francisco.
Cidade e diferentes órgãos públicos locais e estaduais passaram duas décadas planejando o projeto e mais dez anos construindo, por um custo superior a dois bilhões de dólares.
— Você costuma passar muito tempo aqui em cima? — perguntei a Dito.
— Nem tanto. — Ele esquentou as mãos no copo de café. — Durante a Covid, as coisas ficaram bem tranquilas. O Salesforce Park tem uma equipe de segurança enorme, e muita gente ainda está trabalhando de casa.
O parque é patrulhado por um pequeno exército de seguranças particulares, chamados de “embaixadores”, que monitoram a área vinte e quatro horas por dia.
Seus gramados sinuosos são circundados por uma trilha para caminhada ladeada por áreas paisagísticas.
É um espaço convidativo, onde trabalhadores dos escritórios ao redor tomam café, checam mensagens, trabalham nos laptops ou fazem yoga.
O lugar é cercado por arranha-céus reluzentes, entre eles a Salesforce Tower — de formato fálico —, sede global do maior empregador privado de San Francisco.
O edifício mais notório da região é o Millennium Tower, um condomínio de luxo que chamou atenção nacional por não ter fundação fincada na rocha e já ter inclinado cerca de trinta e oito centímetros para noroeste.
Após anos de disputas judiciais envolvendo seus moradores milionários, arquitetos, construtoras e a Prefeitura, as partes concordaram à força com um acordo de cem milhões de dólares para estabilizar a “torre inclinada” da Mission Street.
Nos últimos anos, ela ficou cercada por guindastes, cercas, lonas e caminhões de cimento.
Um bate-estaca martelava uma das dezenas de novas colunas até o leito rochoso, trinta metros abaixo do solo.
Pete falou com Dito. — Mike vai assumir o caso de Reggie Jones, e eu vou ajudar. Entendi que você foi o primeiro policial a falar com nosso cliente.
— Fui eu mesmo. — Dito apontou para a área entre a trilha e o corrimão, onde havia uma faixa de sequoias e arbustos nativos, todos sob a sombra da Millennium Tower.
— Um encarregado da empreiteira encontrou o corpo de Gore na área de construção, ali embaixo, às seis da manhã.
Ele ligou para a segurança da Millennium Tower, do Salesforce Park e para o 190.
Meu parceiro e eu estávamos entre os primeiros policiais a chegar.
Os paramédicos chegaram alguns minutos depois.
Enquanto fazíamos o isolamento do local, a segurança do Salesforce informou que um dos seguranças deles encontrou seu cliente dormindo nos arbustos.
Subi até aqui e conheci o segurança, o chefe da segurança do Salesforce e seu cliente.
Pete perguntou se Reggie foi colaborativo.
— Ele estava desorientado.
— Ele nos disse que tinha desmaiado depois de uma bebedeira.
— Não me surpreende. O segurança achou uma garrafa vazia de tequila ao lado da mochila dele.
— Você o interrogou?
— Sim. No começo ele não colaborou. Depois respondeu algumas perguntas de má vontade. Alegou que tinha passado a noite nos arbustos e não viu ninguém nem nada.
— Ele tentou fugir?
— Não.
— Sinais de luta?
— Um pouco de sangue seco nas mãos e no rosto.
— Ele nos disse que tinha caído na noite anterior.
— Me disse a mesma coisa.
— Você teve motivos para não acreditar nele?
— Só juntei informações, Pete. Ofereci atendimento médico e uma visita ao pronto-socorro, mas ele recusou. Levei-o para a Southern Station para colher o depoimento preliminar. O Ken Lee deu seguimento algumas horas depois.
— Ele era suspeito? — perguntei.
— Todo mundo nas redondezas era potencial suspeito até ser descartado. Ele não estava detido quando falei com ele, então não li os direitos dele. Pelo que sei, o Ken fez isso e se ofereceu para chamar um advogado. Seu cliente recusou.
— Onde o segurança encontrou a carteira do Gore?
Ele apontou para os arbustos. — O segurança achou no chão, ao lado do seu cliente. Não havia dinheiro dentro, mas os cartões de crédito ainda estavam lá. — Ele confirmou que Reggie tinha só doze dólares no bolso.
— Você acha que ele matou o Gore por causa de doze dólares?
— Essa é uma pergunta para o Ken.
— Você acredita que o Reggie roubou o Gore e o empurrou do corrimão?
— Essa é outra pergunta para o Ken.
— Você considerou a possibilidade de o Gore ter deixado cair a carteira a caminho do suicídio, ou de alguém além do Reggie ter se envolvido?
— Sinto muito, Mike. Só o Ken pode responder.
— Para mim, a ligação entre meu cliente e a morte do Gore parece bem tênue.
— Isso vocês advogados que vão discutir.
Pete voltou a falar. — Você fez buscas pela área?
— Claro. — Dito confirmou que não havia mais ninguém no local quando chegou.
Pete apontou para o clube privado atrás de nós. — O Gore estava em uma reunião no Kanzen com alguns investidores. Terminou por volta das duas da manhã.
— Pelo que sei, o Ken forneceu à Rolanda os vídeos de segurança do Kanzen e uma lista dos presentes.
— Encontrou alguma testemunha que viu o Reggie empurrar o Gore do corrimão?
— Não.
— Sabe se alguém no Kanzen estava especialmente irritado com o Gore?
Ele deu de ombros. — Todo mundo perdeu dinheiro no Deal Coin. Eu diria que todos estavam insatisfeitos com isso.