Moneda Muerta (Los casos de Mike Daley y Rosie Fernández 15)
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1 — Enfeite-se Você Mesma—
— ENFEITE-SE VOCÊ MESMA—
Assenti respeitosamente. —Obrigado, Meritíssima. Também é bom vê-la. É ótimo estar de volta ao tribunal. Já faz muito tempo.
Depois de dois anos e meio realizando a maior parte de seu trabalho pelo Zoom durante o que parecia ser o interminável inverno da Covid em San Francisco, Betsy McDaniel estava finalmente de volta à sala de audiência que comandava com a eficiência de um relógio suíço há quase trinta anos.
Tornou-se juíza sênior alguns anos atrás para dar aulas de processo penal na Hastings Law School, viajar com os netos e fazer pilates antes do amanhecer em uma academia sofisticada na esquina de sua casa vitoriana restaurada em Noe Valley.
Ela não teve coragem de se aposentar de vez, então cobria os colegas de vez em quando em audiências de acusação, instruções preliminares e audiências de pedidos.
Ela puxou os fios castanho-avermelhados na altura dos ombros e falou com uma voz ainda marcada pelo leve sotaque do Alabama. —Por que estamos aqui, Sr. Daley?
— Para discutir um pedido de modificação das condições da liberdade condicional da minha cliente.
— Eu não entendo por que o co-responsável da Divisão de Crimes do Escritório de Defensoria Pública acredita que é um uso adequado do tempo deste tribunal reconsiderar um assunto que resolvi na semana passada.
Isso não está começando bem. —Eu vou explicar, Meritíssima.
Ela olhou para o relógio. —Tenho um almoço em oito minutos.
— Serei breve.
Passei os olhos pela galeria vazia, onde os aposentados, moradores de rua, viciados em tribunais e outros figurantes já tinham saído para enfrentar a fila nas poucas lanchonetes que restavam do outro lado da Bryant Street.
O Hall of Justice finalmente voltava à vida depois do fim das restrições da Covid.
O prédio dos anos 60, considerado de última geração quando substituiu o antigo Hall of Justice em Chinatown, já tinha passado muito de sua validade.
As salas de audiência ainda funcionavam, a Equipe de Homicídios continuava instalada no terceiro andar, e ainda era possível pagar multas de estacionamento no saguão.
Mas o Promotor, o Defensor Público, a Delegacia Sul, o Instituto Médico Legal e a maior parte da equipe administrativa já haviam se mudado para prédios com encanamento decente.
A cadeia velha, nos sexto e sétimo andares, fora desativada e substituída por um prédio novo ao lado, e a cafeteria do subsolo era só uma lembrança distante — e nada agradável.
De tempos em tempos, a classe política volta à conversa sobre substituir o monólito obsoleto, com paredes cheias de amianto, tinta à base de chumbo e ventilação ultrapassada.
Essas discussões acontecem desde a primeira vez que entrei neste prédio, quase trinta anos atrás, como um defensor público novato.
Por enquanto, os planos para um novo prédio estão engavetados.
A juíza McDaniel tirou os óculos de leitura. —Não vejo sua cliente, Sr. Daley.
Ela não está aqui. —Ela está a caminho, Meritíssima. Vai chegar a qualquer momento. Assim espero.
— Você já esteve nesta sala tantas vezes que perdi a conta. Um advogado criminalista experiente como você sabe que espero pontualidade de todos.
— Eu sei, e peço desculpas. O compromisso anterior da Sra. Diamond se estendeu além do previsto.
Ela deu leves batidas no relógio. —São onze e cinquenta e oito, Sr. Daley. Sua cliente tem dois minutos.
— Entendido.
A juíza McDaniel recolocou os óculos de leitura e começou a digitar no computador.
Virei-me e olhei para a porta, torcendo para que ela se abrisse logo.
Observei o ponteiro dos segundos do relógio completar a volta.
Faltando cinco segundos para o meio-dia, a porta se abriu e minha cliente avançou pelo corredor, sentando-se ao meu lado na mesa da defesa.
— Desculpe o atraso — ela sussurrou.
Apontei para a juíza. —Preciso que você peça desculpas a ela—agora mesmo. Virei-me para a juíza McDaniel. —Meritíssima, a Sra. Diamond está presente e gostaria de se desculpar.
— Sim, Sra. Diamond?
Debra “Dazzle” Diamond falou com voz firme, deixando claro que não era sua primeira vez em um tribunal. —Sinto muito, Meritíssima.
— Obrigada. Por favor, tente ser mais pontual na próxima vez.
— Sim, Meritíssima.
Dirigi-me à juíza em tom respeitoso. —Posso ter uma palavra rápida com minha cliente?
— Pode.
Afastei Dazzle um pouco, observei a maquiagem carregada, a blusa de paetês e a calça de ioga com estampa de oncinha. —Pedi para você vir vestida de maneira profissional.
— Desculpe, Mike. Eu preciso ir direto pro trabalho quando terminarmos.
— Eu já te expliquei que isso é uma aposta arriscada.
— Entendido.
— Deixa que eu falo.
Os lábios carnudos dela se transformaram num beicinho. — Tá bom.
Ouvi a voz do juiz atrás de mim. — Sr. Daley?
— Sim, Meritíssimo. Lá vai. — Como sabe, a Sra.
Diamond se declarou culpada recentemente por furto de pequeno valor.
Em troca de uma sentença de prisão suspensa, ela concordou em fazer a restituição completa.
Vossa Excelência a colocou em liberdade condicional pelo período de seis meses, com a condição de que ela permanecesse empregada, entregasse o passaporte, ficasse na região da Baía, comparecesse semanalmente junto à sua oficial de condicional e usasse uma tornozeleira eletrônica.
— Isso foi há apenas uma semana, Sr. Daley. Estou bem ciente das condições do acordo da Sra. Diamond. Por que estamos aqui?
— Uma das condições da condicional está dificultando o desempenho profissional da Sra. Diamond. Por conta disso, fica mais difícil ela ganhar a vida e cumprir com a obrigação de ressarcir a vítima.
— Qual condição seria essa?
— A exigência de que ela use uma tornozeleira.
O sotaque do Alabama da juíza McDaniel ficou mais marcado. — Está falando sério?
— Sim, Meritíssima.
Um promotor assistente novato sentando à mesa da acusação se levantou e falou. — O Ministério Público se opõe, Meritíssima. Esse assunto já foi resolvido na semana passada.
Sim, resolvemos.
— Obrigada — disse a juíza a ele. — Se eu precisar de mais alguma coisa, aviso. Ela voltou-se para mim. — Você tem trinta segundos. Apresente seu melhor argumento, Sr. Daley.
— Como sabe, a Sra. Diamond é uma artista.
— Estou bem ciente disso.
Tem mais nessa história. Dazzle era dançarina de pole dance no Gold Club, um clube de strip sofisticado a poucos quarteirões do Moscone Center, em uma região de tecnologia em ascensão no South-of-Market de San Francisco, entre Union Square e o estádio de beisebol.
O antigo Gold Club, que era decadente, agora atende aos “bros” da tecnologia que trabalham nos prédios comerciais vizinhos e moram nos condomínios próximos, antigos cortiços.
Dazzle era mãe solteira, natural de Daly City e formada pela San Francisco State; já trabalhou como assistente jurídica em um grande escritório.
Quando foi demitida pela crise econômica de 2008, começou a dançar e dobrou o salário.
De vez em quando, complementava o orçamento “pegando” umas gorjetas extras das carteiras dos clientes enquanto eles estavam distraídos com suas habilidades no palco.
Seu último furto foi flagrado por um cliente, que botou a boca no trombone.
Além de negociar com o Ministério Público, Dazzle convenceu o chefe (que também era seu namorado) a deixá-la continuar no emprego, com a promessa de que não faria mais aquilo.
— Meritíssima — disse eu —, a Sra. Diamond tem achado extremamente difícil executar suas rotinas de dança usando a tornozeleira. Ela perde o equilíbrio com facilidade e já quase se machucou algumas vezes.
Os olhos da juíza McDaniel se voltaram rapidamente para Dazzle, que respondeu com um aceno solene.
Continuei. — Além disso, as gorjetas da Sra. Diamond diminuíram porque o público parece não estar tão, hum, envolvido com a apresentação.
A juíza olhou para Dazzle de novo. — Isso é verdade, Sra. Diamond?
— Sim, Meritíssima. A tornozeleira distrai.
A juíza McDaniel arqueou a sobrancelha direita. — Não imaginei que seus clientes prestassem tanta atenção no seu tornozelo, Sra. Diamond.
Eu também não.
Dazzle não se desconcertou. — A senhora se surpreenderia, Meritíssima.
— Sim, com certeza — respondeu a juíza, voltando-se para mim. — O que está pedindo, Sr. Daley?
— Que a Sra. Diamond possa retirar a tornozeleira enquanto estiver se apresentando.
— Indeferido.
— Mas, Meritíssima—
Ela me interrompeu com um gesto da mão levantada. — Indeferido.
Eu já imaginava. Comecei a guardar meus papéis quando ouvi a voz de Dazzle.
— Meritíssima? — disse ela.
Droga. Inclinei-me e sussurrei: — Deixa pra lá, Dazzle. Acabou para nós.
— Não, ainda não acabou. — Olhou para a juíza. — Meritíssima, meu show exige que eu brilhe para o público. Não consigo fazer isso usando essa coisa no tornozelo.
— Disseram-me que você é uma dançarina excepcional.
— Gosto de acreditar nisso, mas o monitor é horrível.
— Talvez você possa enfeitá-lo para combinar com o figurino.
— Não uso figurino na maior parte da minha apresentação.
É verdade.
Betsy McDaniel riu. — Capriche no brilho em si mesma, Sra. Diamond. Sua petição está negada e a sessão está encerrada. — Ela não esperou resposta antes de sair para seus aposentos.
Virei-me para Dazzle, que ainda estava ao meu lado. — Desculpe. Eu tentei.
— Você fez o melhor que pôde, Mike. Vou dar um jeito de contornar isso.
— Tenta não se meter em encrenca, tá bom?
— Vou fazer o possível. — Ela abriu aquele sorriso radiante que uma geração de nerds de tecnologia cheios de hormônios achava irresistível. — Você devia aparecer no clube para ver o show. Posso arranjar convites grátis e cupons de bebida pra você. Vai gostar do buffet.
Nem pensar, embora eu saiba por fontes confiáveis que o frango do buffet de almoço não é ruim. — Valeu, Dazzle. Te aviso.
Eu suava pela camisa enquanto caminhava pelo corredor quase uma sauna do Escritório da Defensoria Pública, à uma e quinze daquela mesma tarde.
Vinte anos atrás, mudamos para uma antiga funilaria reformada na Sétima Rua.
Na época, foi um grande avanço em relação ao nosso antigo espaço apertado, meia quadra ao norte, no Hall da Justiça.
Hoje em dia, nossa “nova” sede tem encanamento duvidoso, aquecimento temperamental, paredes arranhadas e carpete turquesa esfarrapado, mantido na base da fita adesiva.
Ao me aproximar do meu escritório de batalhador, fui recebido pelo sorriso largo de Terrence “The Terminator” Love, meu ex-cliente e atual secretário, assistente executivo, oficial de justiça, às vezes segurança, e amigo.
O ex-pugilista peso-pesado de quase dois metros de altura, cento e cinquenta quilos, e aposentado da vida de pequeno furto, estava sentado em seu cubículo ao lado da minha sala.
— Conseguiu convencer a juíza McDaniel a modificar a condicional da Dazzle? — ele perguntou.
— Infelizmente, não, T. Ela vai ter que continuar dançando com aquela tornozeleira.
— Ela vai se adaptar. Ela ficou muito brava?
— Nem tanto. Ela sabia que era difícil. — Pisquei. — Ofereceu convites grátis e cupons de bebida no Gold Club. Se interessa?
— Isso aí não é mais pra mim.
— Nem pra mim.
Ele arqueou uma sobrancelha. — Algum dia já foi?
— Faz muito tempo.
— Você não ia pra esse tipo de clube quando era padre, né?
— De jeito nenhum.
Fui padre por três anos na Paróquia de Santa Ana, no Sunset.
Decidi entrar no seminário depois que meu irmão mais velho morreu no Vietnã, quando eu buscava respostas.
Gostava do lado espiritual e intelectual do sacerdócio, mas nunca me senti apto a salvar almas, e era péssimo em política de igreja.
Joguei a toalha e resolvi fazer Direito, para desgosto do meu pai, policial de bairro em San Francisco, que adorava ter um padre na família.
Ainda vou à missa todo domingo, mas gosto muito mais de ser Defensor Público.
Não tento mais salvar almas, mas às vezes consigo salvar vidas.
Terrence soltou uma risada gutural. Ele tinha acabado de completar sessenta, a mesma idade que eu.
A carreira no boxe terminou cedo porque ele tinha o queixo frágil — e era bom demais pra socar alguém com força.
O alcoólatra em recuperação foi meu primeiro cliente, quando eu ainda era um defensor iniciante.
Dez anos atrás, o contratei como recepcionista do pequeno escritório de advocacia que comandava junto com minha ex-esposa.
Era parte de um acordo de condicional que consegui negociar justamente com a juíza McDaniel.
No fim, deu tudo certo. Minha ex virou Defensora Pública de San Francisco e agora é minha chefe.
Terrence nunca mais tocou em álcool. Virou peça-chave em nosso trabalho, e trouxe ele conosco quando voltamos para a Defensoria.
— Tem algo que eu deva saber? — perguntei para ele.
— Chegaram meus papéis de aposentadoria. Pode me ajudar a analisar?
— Claro. — Sorri. — Você não vai mesmo se aposentar no fim do ano, vai?
— Estou pensando nisso.
— Não consigo te convencer a ficar mais um ou dois anos?
— Vem uma netinha aí. Quero ter tempo com ela. E, além disso, pensei que você fosse se aposentar no fim do ano que vem.
Apontei para a porta fechada da Defensoria. — Depende se a chefe decidir concorrer de novo. Prometi ficar mais se ela ficar também.
— Achei que ela estava inclinada a não continuar.
— Está reconsiderando. O que eu posso oferecer pra te convencer a ficar?
— Deixa eu pensar.
— Mais alguma coisa que eu deva saber?
— A chefe quer falar com você.
— Ela disse sobre o que é?
— Ela precisa que você pegue alguns casos. Um deles é um julgamento de homicídio.