42 — Não Encontrei Nenhuma Evidência—
— NÃO ENCONTREI NENHUMA EVIDÊNCIA—
Às dez e quarenta e cinco da manhã seguinte, uma sexta-feira, a Dra.
Joy Siu vestia seu jaleco branco ao sentar-se no banco das testemunhas, maquiagem impecável, postura de professora universitária.
— Sou a Chefe do Serviço Médico Legal da Cidade e do Condado de San Francisco há dez anos.
Antes disso, fui professora titular e presidente do programa de doutorado em patologia anatômica na UCSF.
Não havia nada a ganhar deixando que ela recitasse seu currículo para o registro. — Meritíssimo, reconhecemos que a Dra. Siu é uma autoridade renomada em sua área.
— Obrigada, Sr. Daley.
Erickson juntou o laudo de autópsia aos autos e o apresentou a Siu. — A senhora realizou a autópsia do Sr. Tyson Gore na terça-feira, oito de março deste ano?
— Realizei, sim. Ela confirmou que havia preparado o laudo.
— A senhora conseguiu determinar a causa da morte?
— Consegui. Siu fingiu olhar para seu relatório. — Traumatismo craniano maciço. O falecido foi empurrado por cima do parapeito do Salesforce Park e caiu na zona de obras em frente à Millennium Tower. Morreu na hora.
— Havia alguma chance de sobrevivência?
— Improvável. Além de fratura no crânio, a vítima quebrou mais de duas dezenas de ossos, incluindo todas as costelas e várias vértebras.
— Ferimentos de defesa?
— Nenhum que eu pudesse identificar. Ela confirmou que o corpo de Gore foi encontrado em um monte de cascalho e coberto de poeira. — Foi uma cena do crime bastante sombria.
Erickson já tinha o que precisava. — Sem mais perguntas.
— Contradita, Sr. Daley?
— Sim, Meritíssimo. Lancei um olhar para Nady, que coçou o nariz—um lembrete para que eu mantivesse o depoimento de Siu curto. Então me aproximei do banco. — Bom dia, Dra. Siu.
— Bom dia, Sr. Daley.
— A senhora afirmou que acredita que o Sr. Gore foi empurrado do parapeito do Salesforce Park e caiu na área de obras abaixo?
— Sim.
— A senhora encontrou o sangue do meu cliente no corpo do Sr. Gore?
— Isso teria sido impossível. O corpo estava coberto de poeira.
— Então a senhora não encontrou o sangue do meu cliente no corpo, certo?
— Isso teria sido impossível — repetiu ela.
— Meritíssimo, poderia, por favor, determinar que a Dra. Siu responda?
— Por favor, Dra. Siu?
— A resposta é não.
Ótimo. — A senhora encontrou o sangue do meu cliente nas roupas do Sr. Gore?
— Não.
— A senhora encontrou o DNA do meu cliente em qualquer parte do corpo ou das roupas do Sr. Gore?
— Não.
— A senhora não encontrou nenhuma evidência de que meu cliente tenha tocado o Sr. Gore, encontrou?
— Não, Sr. Daley.
Olhei para o júri por um instante e então me voltei para Siu. — Então a senhora não encontrou nenhuma evidência de que meu cliente empurrou o Sr. Gore, não foi?
— Não consegui identificar impressões digitais, sangue ou DNA do seu cliente no corpo do Sr. Gore.
Ótimo. — A senhora considerou a possibilidade de que alguém que não o meu cliente tenha empurrado o Sr. Gore?
— Sim, Sr. Daley. Não encontrei evidência alguma.
— A senhora considerou que poderia ter sido um acidente?
— Sim, Sr. Daley. Não encontrei evidência alguma.
— A senhora considerou a possibilidade de o Sr. Gore ter cometido suicídio?
— Sim, Sr. Daley. Não encontrei evidência alguma.
— A senhora sabia que a empresa dele estava afundando e ele enfrentava a falência, não sabia?
— Protesto — disse Erickson. — A pergunta foge ao conhecimento da Dra. Siu.
— Meritíssimo, trata-se de um conhecimento ao alcance de qualquer um que tenha lido um jornal no último ano.
— Indeferido.
Não tinha certeza se o juiz Tsang me concederia essa.
A Dra. Siu assentiu. — Li que a empresa do Sr. Gore estava com dificuldades financeiras.
— E ele estava sob muita pressão por causa disso?
Erickson se levantou como se fosse protestar, mas reconsiderou.
— Suspeito que sim — disse Siu —, mas não tenho conhecimento pessoal.
Apontei para o laudo de autópsia dela. — Seu laudo incluiu um exame toxicológico?
— Sim.
— Dentre outras coisas, mostrou que o Sr. Gore havia ingerido grande quantidade de álcool pouco antes de morrer, não foi?
— Ele estava abaixo do limite legal.
Certo. — Ele também tomava um antidepressivo amplamente prescrito chamado Zoloft, não é?
— Sim.
— Ele também usava drogas sintéticas ilegais conhecidas como ‘bath salts’, correto?
— Sim.
— A senhora sabe que os efeitos colaterais de ‘bath salts’ podem incluir alucinações, agitação, comportamento violento, paranoia e até pensamentos suicidas, não sabe?
— Sei.
— A senhora considerou a possibilidade de que a combinação de estresse, álcool, antidepressivos e drogas sintéticas possa ter levado o Sr. Gore a cogitar o suicídio?
— Considerei essa possibilidade, mas não encontrei nenhuma evidência de que ele tenha feito isso.
— A senhora não teve oportunidade de questioná-lo sobre isso, teve?
— Claro que não, Sr. Daley. No entanto, questionei a terapeuta que recomendou o Zoloft. Ela não percebeu nenhum sinal de que o Sr. Gore estivesse com tendências suicidas.
— Exceto pelo fato de que sua empresa perdeu bilhões, ele bebia muito e tomava antidepressivos fortes e drogas sintéticas, correto?
Erickson protestou. — Pergunta já feita e respondida.
— Deferido.
— Dra. Siu, a senhora não pode afirmar com certeza absoluta que o Sr. Gore não cometeu suicídio, pode?
— Protesto. Não se pode esperar que a Dra. Siu prove um fato negativo.
— Deferido. O juiz Tsang manteve o tom controlado. — Mais alguma pergunta para esta testemunha, Sr. Daley?
— Não, Meritíssimo.
— Por favor, chame sua próxima testemunha, Sr. Erickson.
— O Ministério chama a Dra. Madeline Swartz.