14 “Apenas Negócios”
“APENAS NEGÓCIOS”
O homem magro com corte militar, antebraços musculosos e cavanhaque tingido de preto pressionou o celular contra a orelha e apontou para as duas cadeiras em frente à sua mesa de metal.
O colete da Patagonia e a calça cáqui de grife eram figurino padrão naquela faixa de terra tomada por startups de tecnologia que agora se estende da Market Street, passando pelo estádio de beisebol e pelo novo campus médico da UCSF, até a arena dos Warriors e todo o caminho até Potrero Hill.
Ele girou na cadeira giratória para que Pete e eu não víssemos seu rosto.
Rosnou uma sequência de ordens recheadas de palavrões e encerrou a ligação gritando:
— Resolva isso!
Virou-se para nos encarar, colocou o telefone na mesa, estendeu uma mão fina e mudou para um tom mais cordial.
— Matt Bosworth. Me chamam de “Boz”. Bem-vindos à Boz Coin.
— Mike Daley. Trabalho na Defensoria Pública. Este é meu irmão, Pete, que é detetive particular. Estamos representando Reggie Jones. Obrigado por receber a gente.
— De nada.
A “sede mundial” da startup de cripto do Boz ficava em um espaço aberto de nove por nove metros no terceiro andar da Salesforce Tower.
A única janela dava vista para a estrutura branca que cobria o Salesforce Transit Center do outro lado do beco.
Uma dúzia de funcionários, todos usando fones de ouvido com cancelamento de ruído, estavam lado a lado em mesas de metal, encarando seus laptops.
Havia uma cafeteira e uma mini-geladeira num canto.
As paredes eram pintadas de um branco envelhecido, com buracos mostrando onde antes penduravam quadros de outra pessoa.
— Desculpem pelo ambiente simples — disse Bosworth. — Estamos tentando manter os custos baixos até conseguirmos a próxima rodada de investimentos. A Salesforce está alugando esse espaço para a gente com um belo desconto até encontrarem um novo inquilino.
Considerando o excesso de espaços vagos no centro de São Francisco, isso pode levar um tempo.
Apontei para as pessoas curvadas sobre os laptops.
— Você tem uma equipe dedicada.
— Trouxe as melhores pessoas da Deal Coin. Todo mundo está ganhando “sweat equity”.
Ou seja, ninguém está recebendo nada até conseguirem financiamento. Pode ser difícil achar investidores para uma startup de cripto formada pelo antigo time de gestão da Deal Coin.
Perguntei sobre a nova plataforma dele.
— É um grande avanço na tecnologia da Deal Coin, com melhorias significativas. Tem potencial ilimitado.
Diziam o mesmo sobre a Deal Coin, até que ela perdeu quarenta bilhões em valor. — A situação da Deal Coin deve ter sido muito difícil para você.
— Apenas negócios.
— Sinto muito pelo Tyson Gore. Li que vocês foram colegas de quarto em Princeton. Você devia conhecê-lo muito bem.
— Sim. Ele foi meu padrinho de casamento.
Eu fui padrinho nos casamentos dele. Depois de Princeton, ele foi para a Stanford Business School e fundou várias empresas.
Eu estudei Direito em Columbia e trabalhei em um escritório no Vale do Silício, onde representei o Tyson em algumas transações.
Já éramos amigos e gostávamos de trabalhar juntos, então começamos a fechar negócios.
Ele tinha as ideias e liderava a equipe de tecnologia.
Eu cuidava da parte comercial. Conseguimos marcar alguns golaços e ganhamos muito dinheiro.
E depois você levou alguns tombos e perdeu uma boa grana.
Queria mantê-lo falando.
— O Chronicle disse que o Tyson estava à frente do seu tempo.
— Ele era visionário. Algumas pessoas comparavam ele ao Steve Jobs e ao Elon Musk.
Outros comparavam com Bernie Madoff e Elizabeth Holmes.
— A Deal Coin estava indo muito bem por um tempo — comentei. — O que aconteceu?
— Má fase e azar.
E gestão ruim, não?
— Você entende de cripto? — perguntou Bosworth.
— Um pouco. Tenho amigos no mercado financeiro que acham que nunca vai funcionar no comércio tradicional.
— Eles estão enganados. O Bitcoin existe desde 2009. Não dá para manter uma empresa tanto tempo sem comprovação econômica.
Também ajuda se você tem investidor com bolso sem fundo.
Pete e eu ouvimos atentos enquanto Bosworth engatava uma palestra de dez minutos, salpicada com termos como blockchain, tokens, mineração, cold e hot wallets, chaves públicas e privadas, NFTs, Ethereum e stablecoins.
Eu já tinha ouvido a maior parte do jargão, mas entendia pouco de como tudo se conectava.
— Quando você acha que a cripto vai entrar de vez no mercado? — perguntei.
— Já entrou. Você tem 401(k)?
— Tenho. — Respondi que era administrado pela Fidelity. — Investe em fundos multimercado.
Bosworth deu um sorriso de lado.
— Muitos desses fundos investem parte do dinheiro em cripto. Quando investidores institucionais entram num novo tipo de ativo, já é realidade.
Nem sempre.
Pete fingiu estar impressionado.
— E quanto às denúncias de que estão usando cripto para comprar drogas e lavar dinheiro?
— Não mais.
— Você não consegue fazer compras no mercado com isso.
— Foi aí que surgiu o Deal Coin, e agora o Boz Coin.
Tyson e eu desenvolvemos um algoritmo para tornar o cripto utilizável em transações do varejo presencialmente, no seu celular e no computador.
O Deal Coin não chegou lá, mas nós vamos chegar.
Somos uma das várias startups tentando colocar a plataforma para rodar em grande escala.
Quem chegar primeiro vai valer mais do que o Google e a Amazon juntos.
Me perdoe se fico com o pé atrás.
Pete entrou no jogo. — Se o Deal Coin estava tão perto, por que a avaliação caiu tão rápido?
— O mercado nem sempre é racional. Começaram a circular boatos de que nossos concorrentes iam crescer antes da gente.
Alguns investidores e clientes ficaram inquietos.
As pessoas começaram a pedir o dinheiro de volta, e não tínhamos recursos líquidos para pagar.
Tyson e eu estávamos tentando captar mais uma rodada de capital para concluir o lançamento quando nossa avaliação despencou.
— Ele mostrou o polegar e o indicador separados por pouco mais de dois centímetros. — Faltou isso aqui.
Pete fez uma pausa. — Você perdeu muito dinheiro quando o Deal Coin afundou.
— Eu investi uns dois milhões de dólares. Em certo momento, chegou a valer mais de um bilhão. No final, não valia nada.
— O Chronicle disse que o Tyson reduziu a sua participação na empresa antes de tudo desandar.
— A gente precisava liberar alguns pontos extras para os novos investidores.
— Ele também perdeu uma fatia semelhante?
— Não.
— Deve ter sido frustrante para você.
— Negócios.
— Por que você continuou no Deal Coin?
— Investi muito tempo, energia e dinheiro. Eu acreditava no que estávamos fazendo.
E também estava apostando numa bolada.
Voltei a falar. — Você esteve com o Tyson na manhã do dia em que ele morreu?
— Sim. Fiquei com ele o fim de semana inteiro no Deal Con. — Ele confirmou que foi à festa pós-evento no Four Seasons e no encontro mais tarde no Kanzen. — Chamamos alguns dos nossos principais investidores para ver se eles liberavam um pouco mais de grana pra segurar as pontas.
No mundo dele, “um pouco” significa bilhões.
— Alguma sorte? — perguntei, já sabendo a resposta.
— Recebemos algumas manifestações de interesse.
Mas ninguém realmente abriu a carteira. Perguntei quem tinha comparecido, já esperando a resposta.
Bosworth listou os nomes de quatro magnatas, representantes de fundos de venture capital, private equity, bancos de investimento e fundos soberanos. Reconheci todos da lista que a Rolanda havia passado.
— Alguém ficou irritado com o Tyson? — perguntei.
— Ninguém estava satisfeito com a situação do Deal Coin.
— Alguém bateu boca com o Tyson no Kanzen?
— Não exatamente.
Eu esperei.
Bosworth continuou falando. — Um dos nossos investidores de venture é um cara chamado Steve Warren. A empresa dele investiu mais de um bilhão de dólares. Ele ficou bem abalado por ter que dar esse investimento como perdido.
— Imagino que ele já passou por isso antes.
— Ele é jovem. Deal Coin foi o primeiro grande investimento dele. Levou muita bronca dos investidores e do chefe do VC, que por sinal é o pai dele.
Isso batia com a informação que a Nady tinha passado.
— O Steve descontou pesado no Tyson — disse Bosworth.
Fiz cara de surpreso. — O Sr. Warren ameaçou ele?
— Não exatamente. O Steve é explosivo. Só estava botando pra fora mesmo.
— O que achou do Bosworth? — perguntei ao Pete.
— Uma mistura de marmanjo de fraternidade com geek de tecnologia.
Parece justo. — Precisamos conversar com o Warren.
— Deixa eu ver o que consigo.
Estávamos parados na praça, na base da Salesforce Tower. Uma brisa morna bateu no meu rosto enquanto eu olhava a gôndola que levava da rua até o Salesforce Park. As bate-estacas voltaram a martelar dentro do canteiro de obras ao redor da Millennium Tower, do outro lado da rua.
Ele acrescentou: — Sou só eu ou parece que todo mundo do mundo das criptos tem fundo fiduciário, diploma da Ivy League e pose?
— Parece que é padrão mesmo.
— Alguns desses caras da tecnologia tropeçam numa fortuna e acham que são gênios. Vivem cercados de puxa-sacos alimentando o ego deles.
— Prefiro chamar de “baba-ovo”.
Pete deu uma olhada no telefone, leu uma mensagem e olhou pra mim. — Tem uns minutos?
— Claro. Por quê?
— O gerente do Kanzen topou conversar com a gente.